Crise de enganação

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Crise  de enganação, n. 126, 22 jan. 1999.

 

 

Ao tomar posse em seu segundo mandato, o que aparecia como a grande meta do presidente FHC e sua equipe era mesmo o ajuste fiscal, centrado no assalto às já minguadas aposentadorias e no aumento dos impostos. A manutenção dos altos juros e o aprofundamento da recessão, para atender às determinações do FMI e garantir o pagamento dos serviços das dívidas interna e externa, eram conseqüências lógicas dessa política. Assim, para quem tinha um mínimo de lucidez, estava relativamente claro que o governo já entrara numa zona de incertezas e turbulências, podendo desestabilizar-se a qualquer momento e por qualquer motivo.

Era relativamente previsível que o real teria que ser desvalorizado no primeiro trimestre, que seria necessário muito malabarismo para evitar a eclosão da crise federativa, que a crise social, tendo o desemprego como questão central, poderia explodir, e que as disputas internas no governo e em sua base social tendiam a agravar-se. As variáveis imponderáveis cresciam sobre aquelas que dependiam do Planalto e de sua base de sustentação política.

O presidente Fernando Henrique ainda tentou montar um novo cenário de enganação. Criou o ministério do Desenvolvimento, batizou o antigo ministério do Trabalho de ministério do Trabalho e Emprego, seguindo a nova moda neoliberal que separa trabalho e emprego, e procurou passar a idéia de que desenvolvimento e emprego eram realmente as suas prioridades. É verdade que os titulares dessas pastas não ajudaram muito. Lafer, de cara, declarou que seguiria estritamente a equipe econômica, esvaziando expectativas e o próprio comparecimento de empresários à sua posse. E Dornelles não parece ser uma demonstração segura de grande empenho em criar alternativas de trabalho (e de emprego).

Assim, as próprias tratativas de FHC em manter sua linha imperial com manobras ilusórias aceleraram os fatores de crise. De cambulhada, em menos de 20 dias de novo mandato, Itamar furou o tumor da crise federativa, um novo ataque especulativo (o mercado, como dizem alguns) forçou o governo a realizar uma maxidesvalorização e mudar a política cambial, os operários da Ford mostraram que a paciência dos trabalhadores está se esgotando e os próprios aliados de FHC consideram que ele vive uma crise de credibilidade. Ou de enganação, por não conseguir enganar como antes. O ano começou auspicioso.

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