Crime e castigo

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Crime e castigo, n. 119, 26 nov. 1998.

 

 

A detonação de FHC parece haver se iniciado mais cedo do que o previsto. As denúncias sobre supostas contas secretas nas Ilhas Cayman e os grampos no gabinete do presidente do BNDES, captando conversas pouco edificantes, em todos os sentidos, com o ministro Mendonça de Barros e deste com outras autoridades, inclusive com o presidente da República, mostram os métodos de que são capazes as elites, quando se vêem ameaçadas naquilo que têm de essencial: o capital e o poder.

Na transação com os documentos das supostas contas estão envolvidos, pelo menos, Maluf e Lafaiete Coutinho, dois expoentes da direita aliada do presidente. Na produção dos grampos telefônicos há suspeitas de que participaram, de algum modo, Carlos Jereissati e outros interessados na disputa das operadoras da Telebrás. E na divulgação das fitas com as conversadas gravadas, as suspeitas envolvem assessores do próprio presidente da República, como Eduardo Jorge.

Temos, então, a configuração de atos ilegais praticados por gente que ama a globalização, desde que seus interesses sejam preservados. Todos fazem parte da base de sustentação social e política do governo FHC e, se começam a aplicar golpes ilegais dessa magnitude, uns contra os outros, é sinal de que a repartição do bolo da crise já começa a colocá-los em lados diferentes do balcão.

Entretanto, o mais impressionante é que as fitas gravadas, cujo teor foi confirmado pelos depoimentos do ministro Mendonça de Barros no Senado, colocam em evidência a desfaçatez com que a equipe de FHC trata a coisa pública e com que sem-cerimônia agride a legislação e prática atos lesivos e criminosos, portanto ilegais, mesmo em se tratando da repartição do patrimônio entre as elites privadas estrangeiras e nacionais. Deduza-se dai o que são capazes de praticar contra o povo.

A equipe de FHC considera normal, rotineiro e ético privilegiar os grupos financeiros dos amigos e estrangeiros, em detrimento de outros grupos empresariais que não estejam dispostos a mimoseá-los com favores. Utiliza  métodos de gangues para tirar do páreo grupos que considera gangues. Na verdade, o que temos é realmente uma guerra de gangues. Para sufocá-la, seria preciso processar e colocar todas na cadeia, o que poderia atingir até o presidente da república.

Nessas condições, demissões de ministros, viagens de envolvidos para o exterior e esforços para abafar os escândalos, deverão pautar as soluções buscadas pelos dominantes do país. A não ser que, desencantado, o povão decida elevar sua voz para sustentar os esforços de esclarecimento da oposição de esquerda.

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