Covas

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Covas, n. 228, s/d.

 

 

O estado de saúde de Mário Covas não golpeia apenas um homem corajoso, capaz de enfrentar com destemor a verdade de uma doença cruel. Ela golpeia também, talvez irreversivelmente, as articulações que haviam conseguido transferir o comando do PSDB do Planalto para o Palácio dos Bandeirantes, tendo por objetivo a montagem de um novo esquema político de centro-direita para a disputa eleitoral de 2002.

Covas vinha trabalhando incansável e tenazmente para apressar a escolha de um candidato do PSDB à presidência. Com raro realismo, dera-se conta da existência apenas formal e protocolar do governo central e do perigo que isto significava para a continuidade no poder do grupo que FHC representava , a partir do momento em que os próprios aliados o atropelavam na corrida para a conquista de posições com vistas à presidência da República.

Assim, entre tentar salvar as aparências de governabilidade de um governo falido e apontar um nome que servisse de ponto de reaglutinação da aliança governista, Covas preferiu chamar a si a responsabilidade de comandar a recomposição conservadora ao lançar o nome de Tasso Jereissati. O agravamento de sua doença quase certamente causará sua saída do comando desse processo e introduzirá modificações sérias no rearranjo das forças políticas da aliança responsável pela implementação das políticas neoliberais no país.

Mesmo que o governador de São Paulo supere este momento crítico de sua luta contra a morte, o PSDB terá grande dificuldade em encontrar alguém com sua estatura, disposição e garra para enquadrar a vaidade de FHC e salvar, em novas bases, o esquema que o elegeu e reelegeu. Tasso, Serra e outros que se alinham com Covas talvez não sejam capazes, nem tenham sua credibilidade, de manter o verniz de esquerda, democratismo e progressismo que ele conseguia sustentar, mesmo aplicando uma política neoliberal. Ao contrário de FHC e outros conhecidos tucanos, Covas era decidido e claro no repúdio à direita escrachada tipo Maluf.

É evidente que a esquerda perderá, por seu lado, um oponente franco, destemido e provocativo, que a obrigava a desdobrar-se para enfrentá-lo com argumentos e razão, no bom combate político. Nos tempos de hoje, de ressurgimento do anticomunismo troglodita contra todos que se colocam contra a exploração e dominação do capital, neoliberal, terceirista e de outros matizes, perder um opositor como Covas, mesmo em vida, é uma perda que se deve lamentar.

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