Contrastes

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Contrastes, n. 186, 23 mar. 2000.

 

 

O Brasil parece realmente um país de contrastes. O governo diz que está tudo bem, a inflação baixa, os juros com viés de queda, o câmbio se valorizando e a economia entrando na pista de decolagem. Apesar disso, o Banco Central mantém os juros pra lá da Lua, o ministro Malan garante que o país não agüenta pagar a merreca de 180 reais pelo salário mínimo e o desemprego não arrefece.

Armínio Fraga, representante da Soros Corp., digo, presidente do Banco Central, afiança que o Brasil crescerá a 4% ao ano nos próximos anos, mas o ministro Ornélas diz que isto nada tem a ver com a capacidade da Previdência pagar um mínimo superior a 150 reais para 19 milhões de aposentados. Por isso, FHC manteve o teto subterrâneo bancado pela equipe econômica, e jogou para os estados o pepino de estabelecer um piso mais alto. Coisa de maquiavelismo provinciano.

Enquanto isso, a turma do doutor Fraga reconhece haver cometido um pequeno erro de 7 bilhões de dólares (uns 12 bilhões de reais) nas contas externas, elevando de 22 para 29 bilhões de dólares o que o Brasil tem que pagar aos credores internacionais. Mas isto não impediu o ministro Malan de continuar achando uma enormidade o acréscimo de 8 bilhões de reais nas contas da Previdência, caso o mínimo fosse para 180 reais. Nem que um funcionário da Receita considerasse uma ninharia a dívida de 50 bilhões de reais, que grandes empresas têm com a Previdência.

É isso aí. Tudo vai bem, para um lado só. Talvez por isso FHC garanta que sua base política está tranqüila, unida e ainda nem pensa em 2002. Nada deve atrapalhar a decolagem rumo ao crescimento. No entanto, ele, Malan e ACM fazem competição de lançamento de farpas, enquanto o PSDB, o PMDB e o PFL cospem no aliado PPB-Maluf e continuam maquinando a puxada do tapete sob os pés dos aliados. Tudo com vistas a dominar a presidência das casas do Congresso e ganhar terreno em 2000, para o jogo de 2002.

Assim, o que mais espanta é o contraste entre a aparente retomada do controle da situação por parte do governo FHC e a persistente instabilidade que cerca as relações entre ele e sua base de sustentação, já que a oposição até hoje não foi capaz de se aproveitar do fracasso das promessas do Real e das reformas neoliberais e reconquistar a iniciativa política.

Por mais que o governo e seus aliados façam figuração do tudo bem, as farpas e discrepâncias parecem aumentar de volume à medida que as eleições de 2000 se aproximem e que os candidatos a candidatos presidenciais disputem posições para as indicações partidárias. Como o Conselho de Política Monetária garante que as incertezas econômicas persistem, apesar de tudo, a geração de contrastes deve persistir.

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