Contra-ofensiva

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Contra-ofensiva, n. 492, 25 mar. 2006.

 

 

O acordo sobre a estratégia tucana para combater a candidatura Lula e o PT, selado com a desistência do prefeito Serra, e a unção do governador Alckmin como candidato do PSDB já estão tendo seus efeitos práticos.

Por um lado, a ala dura dos tucanos e pefelistas voltou à carga contra o governo, agora imolando Palocci por prováveis deslizes durante seu governo em Ribeirão Preto, e por supostas noitadas em Brasília. Tanto faz que isso esteja em flagrante contradição com o empenho do PSDB e do PFL na absolvição de Azeredo, por delinqüências cometidas antes de ele ser senador, assim como com as negociatas praticadas durante o governo FHC, e com o comportamento pouco edificante de figuraças da estirpe tucano-pefelista.

De outro lado, o governador Alckmin continua praticando sua ladainha de paz e amor, com promessas de desenvolvimento, renda, emprego, campanha de alto nível, ausência de golpes baixos e de ataques ao PT, ao presidente Lula e a outros adversários. Temos, assim, uma espécie de promessas a Deus, e rezas e práticas ao Diabo.

Até onde essa dúplice estratégia vai se agüentar, é difícil dizer. No entanto, é certo que a atual contra-ofensiva da ala roque pesado da direita, embora seja desesperada, pode causar novos prejuízos ao PT e à candidatura Lula, pelo simples fato de que o PT e o governo permanecem com alguns flancos vulneráveis e sem proteção.

O PT ainda deve à população brasileira, especialmente às classes trabalhadoras, uma explicação cabal sobre as políticas e as práticas levadas a cabo por algumas de suas figuras de proa, que conduziram o partido e o governo à pior crise de sua história. Pior, além de não fornecer essa explicação, continua permitindo que algumas daquelas figuras posem como vítimas, e se arvorem condutores da defesa do PT e do governo.

Nessas condições, embora a ofensiva oposicionista anterior tenha naufragado, a direita ainda tem força social, e muita força material. Com suas relações no aparelho de Estado, ela pode até mesmo forjar, sem muito esforço e com certo êxito, a quebra do sigilo bancário de um caseiro, ou alguma foto comprometedora, e jogar sobre algum petista a culpa pelos feitos. Ela pode, pois, ensaiar novas contra-ofensivas e causar estragos, aproveitando-se dos flancos vulneráveis do PT e do governo.

Assim, quem pensava que a recuperação de Lula e do PT deixara a oposição direitista não só atônita, mas também acabada, está redondamente enganado. O interessante é que a virulência da contra-ofensiva atual não se volta apenas contra os petistas. Se Alckmin não tomar cuidado, ele vai ficar igual ao beato Salu, falando sozinho.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

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