Continuidade e constinuísmo

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Continuidade e constinuísmo, n. 428, 18 dez. 2004.

 

 

Queiramos ou não, a discussão sobre a continuidade das políticas de FHC pelo governo Lula envolve as diversas correntes do PT, seus aliados e seus adversários. O ex-presidente FHC, em especial, assim como algumas correntes mais à esquerda, tem reiterado que Lula dá continuidade à política econômica tucana (neoliberal, acrescenta a senadora Heloisa Helena), enquanto abandona a política social.

FHC pretende, com esse bordão, atingir vários alvos simultaneamente. Quer estimular as divergências dentro do PT e da esquerda, ao dissociar no imaginário popular a “competência” da equipe econômica da “incompetência” da equipe social. O governo, por seu turno, sente-se embaraçado. Nega que esteja dando continuidade às políticas tucanas, mas tem dificuldade em demonstrar essa negação, em particular quando precisa referir-se às metas de inflação, taxas de juros, tributos e política cambial. Pior: alguns membros do próprio governo não só reconhecem que estão dando continuidade ao que herdaram do tucanato, embora com mais inteligência e competência, como até elogiam as políticas passadas. E não conseguem desvencilhar-se da errônea suposição de que a única alternativa à responsabilidade fiscal seria o populismo irresponsável. Nada muito diferente dos que supõem, na outra ponta, que qualquer continuidade é igual a continuísmo.

No Brasil, não ocorreu qualquer ruptura de sistema político e sócio-econômico com a eleição do governo de coalizão dirigido pelo PT. Nessas condições, mesmo considerando ter sido viável implantar algumas políticas econômicas e sociais mais audazes do que as levadas a cabo pelo governo Lula, talvez não fosse possível evitar algum tipo de continuidade, por algum tempo. É difícil dizer o que teria acontecido ao país se as políticas neoliberais de FHC houvessem sido colocadas de lado e outras, estruturalmente diferentes, tivessem sido adotadas. Assim, a discussão se o governo Lula deu ou não continuidade ao que fazia a equipe Malan é desfocada e só interessa à pauta tucana.

O que nos deve interessar são as mudanças introduzidas para obter resultados diferentes daqueles que estavam sendo produzidos por FHC e companhia. E, se tais diferenças vão nos permitir, ou não, realizar a transição prometida no início do mandato Lula. Dizer que não há continuidade, não condiz com a inteligência das pessoas. Dizer que não há diferenças, não corresponde a alguns dos resultados obtidos. Mas, achar que essas diferenças são suficientes e necessárias é o mesmo que transformar o eventual em permanente e a continuidade em continuísmo.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

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