Conta enganadora

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Conta enganadora, n. 233, s/d.

 

 

O resultado das eleições para as mesas da Câmara e do Senado tem permitido exercícios estatísticos os mais variados. Teriam vencido FHC, o Planalto, o PSDB, o PMDB, Aécio, Jader, Covas, José Serra, alguns ministros. Teriam perdido ACM, o PFL, Inocêncio, Tasso Jereissati e alguns outros ministros. Já acostumados com os jogos de tênis, os brasileiros são levados a acreditar que a disputa em torno do comando das casas do Congresso não passou de um set entre jogadores individuais.

Entretanto, por mais que a imprensa engajada nessa mistificação procure manter uma cortina de fumaça, não há como esconder o fato de que a base de sustentação do Planalto rachou. E, por mais que dê a aparência de que a unidade será refeita, dificilmente FHC e o PSDB conseguirão manter a fidelidade do PMDB, quanto mais do PFL.

Como Aécio Neves cumprirá a promessa de aprovar o projeto que limita a emissão de medidas provisórias pelo executivo? Como o PMDB vai conciliar sua aliança com o Planalto e, ao mesmo tempo, garantir a Itamar Franco um espaço para disputar sua candidatura à presidência pelo partido? Ou, pior, como o PMDB vai manter sua unidade com o PSDB, já estando decidido e em carreira desabalada para ter candidato próprio em 2002? Ou, como voltar a soldar a base governista com a crescente enxurrada de notícias sobre o leilão de verbas federais, promovido por ministros do PSDB e PMDB, para conquistar votos de parlamentares filiados ao PFL, PTB e PPB, leilão que fez a pretensa “eleição limpa” do Congresso escorrer pelo ralo?

Além disso, há muito prevendo os movimentos no sentido de isolar o PFL, ACM travou uma batalha que deixou uma marca indelével de improbidade administrativa e corrupção no novo presidente do Senado e nos que o apoiaram. Assim, se os “vitoriosos” dessa disputa enlameada parecem tê-la obtido às custas dos próprios aliados estratégicos, pisando sobre seus corpos com a mesma vontade mórbida com que sempre procuraram destruir seus inimigos do campo popular, os “derrotados” causaram tais estragos na credibilidade dos “vitoriosos” que, encerrada a batalha, por mais que ambos falem em paz e reconciliação, dificilmente poderão fazer com que o povo esqueça o ocorrido e dêem o dito por não dito. Afora o fato de que, estando em disputa as posições de força dentro do governo, com vistas a 2002, ninguém vai abrir mão do conquistado para amainar a briga. Basta ver a continuação da novela, agora estrelada por ACM e Renan Calheiros.

O fato inconteste é a divisão do bloco no poder e o acirramento da disputa dentro dele. A mídia esqueceu de dizer, então, que, numa disputa desse tipo, ganha mais quem ficou de fora, olhando o sangramento das forças adversárias. O resto é conta enganadora.

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