Conspiração

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Conspiração, n. 356, 26 jul. 2003.

 

 

Se alguém pensa que o governo só enfrenta oposição em alguns setores do funcionalismo, está enganado. Para Joelmir Betting, o governo Lula estaria praticando uma política de “desinvestimento”, através da “ruptura não negociada dos contratos das telecomunicações”, do “novo vácuo regulatório” da energia, do “corpo mole na regulamentação do saneamento básico e do transporte intermodal” e do “corporativismo reacionário na reforma da Previdência”. Segundo ele, o governo “ainda não desenhou um projeto nacional de desenvolvimento”, um “planejamento estratégico” com “a antevisão do Brasil 2010 ou do Brasil 2020”, para “mobilizar o capital”.

Já o Prof. José Pastore, da USP, está convencido de que, “na questão basilar do emprego”, “forças destruidoras” estão retardando ou sabotando o relançamento da economia ao “espantar investidores no setor produtivo”. Haveria uma conspiração, impedindo “a reforma da Previdência”, prestigiando “os entulhos da legislação trabalhista”, endossando a “insegurança jurídica dos contratos”, tolerando “a violação da propriedade no campo”, nada fazendo “contra o crime organizado” e praticando a “insanidade de juros e de impostos”.

Bem vistas as coisas, as táticas do governo Lula embaralham não apenas setores à esquerda, mas também do lado de lá. Por uma parte, embaraça sua base política ao arrancar um naco do couro de segmentos intermediários, para aumentar a capacidade de financiamento do Estado. Por outra, esforça-se para reordenar a abertura desbragada do governo anterior, principalmente na área das telecomunicações, energia, saneamento e transportes, para impedir a sangria que “investimentos” nessas áreas causavam na população e no país.

Mas não deixa de ser irônico ver pessoas que abominavam o planejamento estratégico de desenvolvimento e achavam que empregos dependiam basicamente de reciclagem profissional, falando agora de “projeto nacional de desenvolvimento” e de “investimentos em setores produtivos” para resolver a “questão basilar” do emprego.

Para ser justo, não se pode negar ao governo Lula haver reposto, na pauta do país, a necessidade do planejamento estratégico (a começar pelo PPA) e do próprio desenvolvimento, assim como de substituir os “investimentos” especulativos, ou de motel, por investimentos produtivos. Porém, embora investimentos produtivos sejam cruciais para o crescimento, eles só terão efeito na “questão basilar” do emprego se forem, em grande medida, direcionados para setores intensivos em trabalho.

Se isso ocorrer, muitos reclamarão da “conspiração” a favor de áreas “pouco importantes”. Mas, se não ocorrer, não haverá reforma da Previdência, limpeza de “entulhos” trabalhistas, “segurança” de contratos, fim da “violação” da propriedade no campo, liquidação do crime organizado e “sanidade” dos juros e dos impostos que tenha o condão de acabar com a conspiração do desemprego. Assim, ainda deverá haver muita “conspiração” nas políticas do governo Lula a embaralhar as visões de uns e outros.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político

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