Confundindo amigos e inimigos

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Confundindo amigos e inimigos, n. 336, 08 mar. 2003.

 

 

Na vida econômica, não é raro fazer contingenciamentos quando se apresentam desequilíbrios entre a capacidade de investir e os investimentos projetados e/ou em efetivação. Embora contingenciamentos nem sempre sejam sinônimos de superávits primários, no caso brasileiro estes tornaram-se uma das principais causas daqueles.

Tal problema poderia ser resolvido, como todos sabem, através de outros mecanismos econômicos. A moratória é o mais lembrado. Neste caso, porém, há base política, nacional e internacional, para enfrentar com segurança o tranco do sistema financeiro e das potências imperiais? Um enfrentamento imediato desse tipo traria benefícios aos objetivos de mudanças do governo Lula? De econômica, a questão torna-se política.

O mesmo se pode dizer da reforma previdenciária. O atual regime brasileiro de previdência não é mais, econômica e financeiramente, sustentável. Não tanto pelo fato de 80% dos aposentados receberem até quatro salários mínimos, enquanto 10% recebem R$ 20 mil. Porém, porque sua base contributiva é muito estreita e de baixos salários e porque boa parte das empresas deve bilhões ao sistema. Então, ele tem que mudar, não porque tenha “privilegiados” recebendo R$ 20 mil, mas porque tem muita gente sem contribuir, ou contribuindo pouco, e muita gente recebendo muito pouco.

No entanto, quanto o centro do debate sobre a previdência se desloca para os chamados “privilégios” e para os “direitos adquiridos”, inclusive com a invocação da quebra dos “direitos dos senhores de escravos” para justificar a discussão do assunto, nós entramos no campo da política. Direitos são contratos. Se prometemos “respeitar os contratos” com o FMI, banqueiros, companhias de eletricidade inadimplentes etc, e nos vemos obrigados a fazer contingenciamentos para cumprir o prometido, por que os “privilégios” e “direitos adquiridos” dos aposentados podem ser discutidos e quebrados?

Por que aposentados que ganham R$ 20 mil são “privilegiados” e corporações multinacionais que lucram bilhões de dólares, impondo-nos altos juros e altas tarifas públicas, não o são? Não podemos nos dar ao luxo de criar choques prematuros com as grandes corporações multinacionais, porque elas são fortes. Mas, menos ainda, podemos nos dar ao desfrute de atacar setores intermediários que fazem parte da frente única de sustentação do governo Lula, porque são fracos.

Todos os assuntos econômicos e financeiros da crise brasileira envolvem opções políticas que não podem ser desprezadas, por um lado e pelo outro. Se o parâmetro de isolar os setores realmente privilegiados e atrair e unir-se aos setores “aparentemente privilegiados” da sociedade brasileira não for observado na medida, o PT e o governo Lula correm o risco de lutar contra os amigos, romper a frente única e receber elogios dos inimigos. Será uma confusão imperdoável.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político

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