Concentrar ou dispersar (7)

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Concentrar ou dispersar (7), n. 370, 01 nov. 2003.

 

 

O objetivo desta série foi acentuar a complexidade da situação que a esquerda vive no Brasil, sendo governo e, ao mesmo tempo, não tendo força social e política suficientes para efetivar as reformas estruturais que o país almeja. Essa dicotomia tem levado, como as páginas do Correio traduzem fielmente, a avaliações díspares sobre o governo e as políticas que a esquerda deveria adotar.

Não há dúvida que as políticas governamentais têm gerado resultados econômicos contraditórios. Por um lado, a inflação e o câmbio alcançaram uma estabilização relativa, enquanto a bolsa de valores manteve-se em alta, em grande parte devido ao retorno do capital de motel. Os banqueiros internacionais estão favoravelmente surpreendidos com os resultados do governo Lula no controle desses indicadores macroeconômicos. E a equipe econômica supõe, diante disso, que o Brasil está livre de retaliações e assegura que, finalmente, estão consolidados os fundamentos que permitem o crescimento econômico.

Por outro lado, os juros bancários se mantêm absurdamente elevados, o desemprego subiu, a renda dos trabalhadores continua em queda, a produção industrial não saiu da recessão e os investimentos diretos no parque produtivo têm crescido muito pouco. Embora a produção e a exportação agrícolas tenham aumentado, influindo positivamente no superávit comercial e na melhoria das contas externas, elas não desempenharam qualquer papel positivo no aumento do emprego. Confirma-se a tendência dos setores dinâmicos crescerem com pequena ou nula criação de postos de trabalho.

Num quadro como esse, os empresários da indústria e os trabalhadores urbanos têm pressionado o governo a adotar medidas reais para reduzir os juros bancários e colocar em prática o crescimento. Embora todos considerem a política macroeconômica de estabilidade uma condição necessária para o desenvolvimento sustentado, a maioria também sabe que ela está longe de ser suficiente para que o crescimento se dê. Em outras palavras, parece haver chegado a hora de testar a compatibilidade entre a política macroeconômica e a verdade do crescimento e do emprego.

Supondo-se o cenário mais favorável, de calma nos mercados internacionais e ausência de crises financeiras, chegou o momento de resolver onde obter 25% do PIB em recursos para investir, ao menos em infra-estrutura, expansão do parque produtivo, ciência e tecnologia e educação. E compatibilizar isso com a expansão do emprego e a elevação da renda dos trabalhadores das cidades e dos campos.

Se essa inflexão ocorrer até o final de 2003 e apontar para uma curva ascendente em 2004, pode-se reconhecer que deu certo a tática amarga do arrocho fiscal dos primeiros dez meses de governo Lula. No entanto, se o país for abalado mais uma vez por ataques especulativos, não há como evitar a suposição de que a equipe governamental viveu uma ilusão e precisará mudar de política. Mesmo sem ter ainda uma força social capaz de sustentá-la nessa virada.

 

Wladimir Pomar é analista político e escritor.

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