Concentrar ou dispersar (6)

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Concentrar ou dispersar (6), n. 369, 25 out. 2003.

 

 

Orientar-se por uma perspectiva estratégica que conduza ao fortalecimento da base social da esquerda brasileira, reconstruindo, capacitando e organizando as classes populares para as batalhas realmente decisivas na evolução do governo Lula, não é, supomos, uma questão fácil de resolver. Do ponto de vista estratégico geral, será necessário ter em conta que o capitalismo não tem solução para os problemas do desenvolvimento sustentável do país. Portanto, mesmo afundada na solução de questões táticas impostas pela conjuntura, a esquerda não pode perder de vista sua perspectiva democrático-popular e socialista.

Infelizmente, não basta manter acesa a perspectiva democrático-popular e socialista. A questão reside em, partindo das condições conjunturais reais, mudar a correlação de forças e aproximar-se dessa perspectiva. E quais são as condições conjunturais com as quais nos defrontamos? Temos uma situação em que a burguesia continua com a hegemonia econômica, ideológica e política na sociedade brasileira e em que um governo de frente única, dirigido pelo PT, debate-se num quadro complexo de disputas internas e externas.

Externamente, sob chantagem da burguesia corporativa internacional e nacional, particularmente de seu setor financeiro, o governo pretende evitar retaliações e ganhar tempo para reduzir a vulnerabilidade externa, dando continuidade às políticas macroeconômicas de FHC. Internamente, o governo pretende atender, ao mesmo tempo, aos reclamos da burguesia industrial e agrária e das grandes camadas populares. Quer alavancar o crescimento econômico, gerar empregos, redistribuir renda e criar um mercado doméstico relativamente amplo, mas se confronta com aquelas políticas macroeconômicas, que tolhem as possibilidades de investimentos maciços.

Para crescer de forma razoavelmente consistente, o Brasil precisa investir pelo menos o equivalente a 25% de seu PIB. Além disso, como procuramos mostrar em comentários anteriores, para gerar novos postos de trabalho, que reduzam fortemente o atual patamar de desemprego, o crescimento econômico não poderá concentrar-se exclusivamente na chamada ponta dinâmica da economia brasileira. Ele terá que voltar-se também, e decisivamente, para a expansão massiva dos micros e pequenos empreendimentos.

A solução das atuais pendências conjunturais ou táticas é decisiva para definir o rumo estratégico do governo Lula. Isto, mesmo supondo que não ocorram crises financeiras internacionais que devastem as vulnerabilidades externas brasileiras, o que mudaria totalmente o quadro conjuntural e colocaria o governo prematuramente contra a parede. Mas, em qualquer das hipóteses, uma coisa é o governo operar tais pendências, mantendo isolada a burguesia corporativa e neutra ou atrelada a burguesia intermediária, sem ter a emergência de uma forte força social popular. Outra coisa é contar com tal força social como suporte de suas políticas. Então, a questão chave está em concentrar esforços para construir ou reconstruir tal força, ou dispersá-los indistintamente.

 

Wladimir Pomar é analista político e escritor.

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