Concentrar ou dispersar (5)

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Concentrar ou dispersar (5), n. 368, 18 out. 2003.

 

 

Antes de prosseguir nesta série “Concentrar ou dispersar”, talvez seja útil relembrar as teses defendidas nos comentários anteriores: 1) a presente correlação de forças sociais e políticas do cenário brasileiro é desfavorável às classes populares; 2) a esquerda é governo e será governo enquanto as grandes parcelas do povo brasileiro que votaram em Lula assim a virem; 3) essa situação de fato modifica a qualidade da ação política da esquerda; 4) dado o contexto acima, a questão estratégica chave da esquerda, e do governo da qual ela é parte, consiste em reconstruir a força social das classes populares, isto é, sua capacidade de luta e de organização, como base para mudar a correlação de forças e avançar nas mudanças que correspondam aos interesses dessas classes.

Continuando: 5) nas condições atuais do Brasil, a reconstrução da força social das classes populares passa, necessariamente, pela superação da fragmentação dessas classes e, portanto, pela solução do problema do emprego; 6) a solução da questão do emprego não pode ser resolvida através do crescimento econômico em geral, mas apenas e especificamente, através do crescimento massivo dos micros e pequenos empresários, ou seja, dos capitalistas democráticos como, provocativamente, os tenho chamado.

Finalmente, mas não as últimas: 7) as políticas já adotadas pelo governo Lula, como Fome Zero, reforma agrária,  apoio à economia familiar rural, ao associativismo e à economia solidária, assim como outras do mesmo teor, representam instrumentos importantes para aquela solução, desde que sejam efetivadas e massificadas; 8) o crescimento massivo do capitalismo democrático e, em conseqüência, do número de trabalhadores assalariados, principalmente industriais, longe de representar um retrocesso ou um abandono da luta de classes, cria as bases objetivas para que as classes populares tenham força para travar sua própria luta e influir sobre os rumos do país.

Nesse sentido, dando prosseguimento, 9) a atividade governamental da esquerda não pode ficar restrita aos fatores financeiros, econômicos e assistenciais que envolvem aquelas políticas. Será necessário colaborar efetivamente para a organização social e política das classes populares e, também, dos capitalistas democráticos. O que significa, entre outras coisas, estimular a participação democrática e a elevação da consciência política dessas classes e esforçar-se para que os trabalhadores conquistem a hegemonia política.

Nada disso é simples ou fácil de fazer. Mas vai exigir que a esquerda no governo se oriente por uma perspectiva estratégica que conduza ao fortalecimento de sua base social, reconstruindo, capacitando e organizando as classes populares para as batalhas realmente decisivas na evolução do governo Lula.

 

Wladimir Pomar é analista político e escritor.

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