Concentrar ou dispersar (4)

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Concentrar ou dispersar (4), n. 367, 11 out. 2003.

 

 

Estar no governo e dedicar esforços para induzir uma expansão capitalista que tenha como foco principal o desenvolvimento dos micros e pequenos empresários, mesmo que isso represente uma democratização do capital e um aumento considerável do número de trabalhadores assalariados empregados, realmente demanda uma compreensão apropriada do momento histórico que atravessamos. Senão, isso pode levar alguns a supor que o capitalismo democrático resolverá os problemas do país. Ou, ao contrário, que não se deve realizar tal esforço porque ele significará o abandono da luta de classes.

Em primeiro lugar, o Brasil é um dos poucos países do mundo em que os pequenos capitalistas jamais tiveram condições de expandir-se efetivamente, em proporção ao tamanho do país e de sua população. Aqui, jamais ocorreu certa desconcentração de renda e de capital. Não foi realizada nem mesmo a reforma agrária, que marcou os processos de democratização da terra e do capital na maioria dos países capitalistas. O latifúndio era funcional ao tipo brasileiro de desenvolvimento capitalista, baseado nos grandes capitais nativos (estatais e privados) e estrangeiros.

Nessas condições, o desenvolvimento induzido dos micros e pequenos capitalistas reforçará o setor democrático do capitalismo, aqui no sentido de que força uma certa democratização da propriedade capitalista. Isto representará inevitavelmente o aumento das disputas internas que marcam as relações entre os diversos setores do capital, permitindo às forças populares cindir a representação burguesa do capital. Mas este não é certamente o aspecto mais importante da expansão do capitalismo democrático. A real importância dessa expansão consiste em ampliar de forma substancial o número de trabalhadores assalariados, particularmente na indústria.

Com isso, mesmo que alguns membros da esquerda política abandonem a luta de classes, e até se coloquem contra, ela terá condições de se fazer presente porque sua base real foi fortalecida. Aliás, é um velho engano supor que a luta de classes só existe porque alguns revolucionários a incentivam. Ou, ao contrário, que a luta de classes pára quando alguns revolucionários a traem. A luta de classes existe quando as classes reais possuem condições de luta e a fazem independentemente das suas supostas ou reais representações ou direções. E ela também pára e deixa certas direções falando sozinhas, quando suas forças se esgotam, como é o caso da atualidade brasileira.

Eis porque, se a esquerda pretende ter alguma força social para enfrentar a disputa que ocorre dentro e fora do governo, entre os interesses dos grandes grupos capitalistas nacionais e internacionais e as classes populares, ela terá que se valer do fato de que é governo e aproveitar todas as políticas governamentais que lhe permitem superar a fragmentação daquelas classes populares. Se não fizer isso, transformando o Fome Zero, a reforma agrária, a economia familiar rural, o micro-crédito, o crédito em geral, a economia solidária, o associativismo etc. em instrumentos concretos de superação do desemprego e mobilização dos segmentos populares, demonstrará não só incapacidade de governo, como falta de visão estratégica.
Wladimir Pomar é analista político e escritor.

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