Concentrar ou dispersar (3)

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Concentrar ou dispersar (3), n. 366, 04 out. 2003.

 

 

Para modificar correlação de forças, reconstituir a força econômica e social das classes populares e dar sustentação ao governo Lula em sua mudança de rota, é chave focar prioritariamente e dar massividade à criação de postos de trabalho. Apesar disso, essa questão não tem estado na pauta da esquerda, como deveria. E é provável que a maioria dos leitores a considere um assunto chato e carregado de heresias.

Afinal, falar em procurar a forma mais rápida e consistente de ampliar a oferta de empregos e avolumar o número de trabalhadores assalariados, nas atuais condições capitalistas brasileiras, é o mesmo que falar em expandir massivamente o setor capitalista democrático dos micros e pequenos empresários, que absorve parcela importante da força de trabalho e atende mercados específicos de baixa renda, embora muitos desses empresários operem na clandestinidade ou na “informalidade”.

Sabe-se que esses capitalistas exploram brutalmente sua força de trabalho, possuem uma postura em geral reacionária e alguns até praticam o trabalho escravo. Como, então, justificar a expansão desses capitalistas e, ainda por cima, chamá-los de democráticos? Basta não esquecer que, historicamente, a classe dos trabalhadores assalariados, também chamada de classe operária ou proletariado, só surgiu e se expandiu com a expansão do capitalismo. Sem crescimento capitalista, não há possibilidade de aumentar o número de trabalhadores, pelo menos enquanto a sociedade estiver sob tal sistema.

O problema da atualidade reside em que o crescimento capitalista não significa, necessariamente, aumento da força de trabalho empregada. Se a geração de empregos depender do crescimento das empresas tecnologicamente avançadas e do crescimento espontâneo dos micros e pequenos capitalistas, certamente não haverá aumento de postos de trabalho. As empresas médias e corporativas no máximo aumentarão a rotatividade do trabalho, substituindo os velhos por jovens e os menos qualificados por mais qualificados. E os micros e pequenos capitalistas continuarão sobrevivendo, mas crescerão pouco, em virtude do processo de destruição e recriação a que estão submetidos, engolfados por dificuldades financeiras, comerciais, legais e fiscais.

No Brasil atual, uma expansão capitalista capaz de gerar milhões de novos empregos e, portanto, criar as condições para o ressurgimento de uma vasta classe de trabalhadores assalariados só ocorrerá se for induzida pelo Estado, através de ações efetivas e massivas no campo legislativo, jurídico, técnico, creditício e comercial, para expandir o setor capitalista democrático. Outros governos de países capitalistas, em outros momentos da história, fizeram isso por motivos econômicos, sociais e até políticos. A única novidade é o fato de que, no Brasil, quem está no governo é a esquerda.

 

Wladimir Pomar é analista político e escritor.

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