Concentrar ou dispersar (2)

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Concentrar ou dispersar (2), n. 365, 27 set. 2003.

 

 

O senso comum credita ao crescimento econômico a solução do problema do emprego. Resolvido este, teríamos resolvido o problema da distribuição de renda. Então, bastaria ao governo central ter a vontade política de adotar as medidas adequadas, como decretar a redução dos juros, para que a situação mudasse.

Para início de conversa, esse senso comum esquece que, falar de crescimento econômico, nas atuais condições brasileiras, significa falar de crescimento capitalista, numa fase em que predomina a tendência à intensificação da produtividade. Portanto, o crescimento das grandes e médias empresas que dominam o horizonte econômico pode não resultar em expansão do emprego, embora possa absorver uma parte da mão-de-obra desempregada e resultar num crescimento geral do PIB.

Da mesma forma que hoje temos um quadro recessivo com grande expansão e crescimento dos setores produtivos voltados para a exportação, poderemos ter a permanência do quadro de desemprego, ou até seu aumento, mesmo com grande expansão e crescimento dos setores corporativo e médio do capital. A solução da questão do emprego exige, portanto, uma outra abordagem. Mesmo porque não se trata apenas de uma questão social, no sentido humanitário que o termo social carrega.

O desemprego é o principal fator de desagregação das camadas populares, o principal agente de fragmentação da força econômica e social da classe dos trabalhadores assalariados, dos camponeses e da pequena burguesia urbana. Ao ampliar a marginalização econômica e social, o desemprego impõe àquelas classes uma dinâmica de sobrevivência que impede sua organização e sua capacidade de luta e, portanto, a elevação de sua consciência social e política. Em tais condições, ele assume uma dimensão estratégica, tornando o seu oposto, o emprego, um dos principais fatores de reconstrução da força social das classes populares.

Diante disso, o dilema da esquerda em ser ou não ser governo também ganha uma nova dimensão. Fora do governo, ela teria apenas que levantar bandeiras de luta e tentar mobilizações, exigindo medidas para efetivá-las. Sendo governo, sua atividade muda de qualidade. Não lhe basta difundir palavras de ordem e tentar mobilizações populares. As massas a elegeram para efetivar medidas concretas, mesmo num governo em disputa. E ela nem pode reclamar que lhe faltam instrumentos.

As políticas do Fome Zero, reforma agrária, economia familiar rural, micro-crédito, crédito em geral, economia solidária, associativismo e outras similares constituem instrumentos concretos para efetivar medidas de superação do desemprego e mobilização dos segmentos populares para ampliar sua abrangência. São instrumentos aos quais a esquerda jamais teve acesso antes. Agora, podem ser utilizados para focar prioritariamente e dar massividade à criação de postos de trabalho, e reconstituir a força econômica e social das classes populares. Mas também são instrumentos em disputa, que trazem embutidas questões nada fáceis. Como sempre.

 

Wladimir Pomar é analista político e escritor.

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