Concentrar ou dispersar (1)

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Concentrar ou dispersar (1), n. 364, 20 set. 2003.

 

 

Espanta, naqueles que desejam que o governo Lula renuncie de chofre à alternativa neoliberal sem medir a correlação de forças e as conseqüências, darem a batalha como perdida. Sequer consideram o governo popular como um governo de disputa interna e externa, no qual se trava um combate diário entre mudanças corretivas no modelo neoliberal e mudanças de modelo, entre concessões táticas e concessões estratégicas, entre a hegemonia ideológica neoliberal e a hegemonia democrática e popular. Para eles, já chegou o momento de passar para a outra margem, onde seria possível encontrar milhões de pessoas com vontade de fazer tudo de outro jeito.

O problema é que as milhões de pessoas com vontade de fazer tudo de outro jeito só existem na visão idílica de alguns. Houve toda uma geração que experimentou sensação idêntica, durante a ditadura militar. Descobriu tarde demais que as milhões de pessoas do povo brasileiro procuravam outro caminho, e não o que ela supunha mais acertado. Então, não nos basta a indignação diante da situação econômica e social. É fundamental reiterar que as classes que compõem a base popular da esquerda, essenciais para mudanças mais radicais na conjuntura, continuam desestruturadas, fragmentadas, desorganizadas e desmobilizadas, e ainda não têm força social para fazer tudo de outro jeito.

Nessas condições, reconstruir e fazer emergir a força social dessas classes, em especial dos trabalhadores assalariados, é questão chave para a esquerda. De que ângulo essa missão estratégica pode ser realizada? De fora do governo e contra o governo, como sugerem alguns? De dentro do governo, mas contra o governo, como sugerem outros? Em qualquer dos casos, o problema é que a esquerda, mesmo que sua maioria saia do governo, continuará sendo vista… como governo pelas milhões de pessoas que permanecem apoiando Lula. A esquerda é governo, está no governo, e permanecerá sendo assim aos olhos de milhões de brasileiros, pelo menos até que, e se, na pior das hipóteses, Lula frustrar suas expectativas.

Assim, é do ângulo desses milhões que a esquerda precisa posicionar-se para reconstruir a força social das classes populares. Eles esperam que a esquerda, em seu sentido amplo, agora como governo, solucione alguns dos problemas estruturais da sociedade brasileira, em especial emprego, crescimento econômico, distribuição de renda e desenvolvimento sustentável. Querem soluções práticas para tais problemas. Soluções que passam ao largo da vontade sonhadora da igualdade, por estarem amarradas às contradições e condições reais com as quais hoje nos defrontamos. Sem tratar desses desafios, a esquerda ficará sem condições de enfrentar os embates futuros nos quais o governo Lula e ela própria se envolverão, mesmo nos melhores cenários conjunturais.

Wladimir Pomar é analista político e escritor.

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