Complicadores

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Complicadores, n. 401, 12 jun. 2004.

 

 

O governo parece sentir-se aliviado com as notícias de reativação econômica e com a recuperação do poder sobre sua base parlamentar. No entanto, é nosso dever alertá-lo de que há complicadores à frente, principalmente porque os fatores que influenciam a vida e as expectativas dos setores populares não parecem alentadores.

Não há certeza de uma reativação econômica firme. Ela depende de demandas externas, cujos cenários são de instabilidade (juros norte-americanos e preços do petróleo e das commodities), sem perspectivas seguras de que possamos superar nossas vulnerabilidades a curto prazo. No terreno doméstico, continuam altos o desemprego, a inadimplência e os juros. E, mesmo que o crescimento da economia chegue a 5%, como prevêem alguns otimistas, isto pode não significar, necessariamente, a solução do desemprego. E este é, indubitavelmente, o problema que afeta com maior força a base social do governo, com reflexos também negativos no déficit da Previdência e na situação fiscal do país.

Embora o prestígio de Lula continue alto entre os segmentos populares, ele está sendo erodido por uma dolorosa desilusão, não captada adequadamente. As políticas sociais do governo, mesmo que estejam tendo sucesso, não conseguem substituir o forte simbolismo dos empregos efetivos, dos salários, dos assentamentos e da queda dos impostos. Parcelas populares crescentes expressam, em suas formas peculiares de linguagem, sua insatisfação com a pouca oferta de oportunidades de trabalho e emprego, com os salários de poder aquisitivo decrescente, com o aumento da carga de tributos e com o processo de falência da economia familiar rural.

Essa desilusão não se reflete em movimentos sociais poderosos. A maioria da base social do governo permanece imobilizada. No entanto, seria um engano supor que tal imobilidade representa concordância com a situação. Após mais de 20 anos de estagnação e piora de suas condições de vida, as camadas populares já não suportam esperar pelo resultado de ajustes que só a elas sacrifica. Podem, pois, como em 1989, 2000 e 2002, descarregar sua insatisfação nas urnas.

Essa perspectiva explica, melhor do que quaisquer outras interpretações, a inflexão do PFL e do PSDB para o populismo de direita e as disputas dentro do PMDB. Afinal, se o PT e o governo forem derrotados em 2004, teremos uma profunda mudança de conjuntura política, com conseqüências negativas sobre a governabilidade e sobre todos os planos e ações do governo popular. Teremos voltado para 2002, quando a população se perguntava em que projeto votar e votou em Lula para mudar. Se tais complicadores não forem levados na devida conta, seja o que Deus quiser.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

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