Como em 1999

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Como em 1999, n. 225, s/d.

 

 

Chegamos ao final do século e do milênio com cenários no mínimo instigantes. A rigor, não estão muito distantes daqueles que vislumbramos no final de 99, ao alertar que as promessas do governo para 2000 poderiam repetir o fiasco das previsões que fizera em 1998, em relação a 1999. É verdade que, como então, os assessores presidenciais continuam assegurando que os fundamentos econômicos vão bem, que o efeito Argentina não chegará aqui, que a educação vai às mil maravilhas, que o número de pobres decresceu, que as privatizações continuam com ágios avultados, e por aí afora.

Apesar disso, a moeda continua sua marcha de desvalorização, os juros permanecem estratosfericamente altos, o crescimento econômico é setorial e incerto, o risco inflacionário ainda tira o sono da equipe econômica, a quebra de empresas não desce de seu patamar elevado, o desemprego se mantém impavidamente alto e a vulnerabilidade do país às crises internacionais é reconhecida não só pelo ministro Malan, como pela maioria das patotas que se reúnem nos botecos para jogar conversa fora.

Nessas condições, como no início do ano, a insatisfação social e a instabilidade política não arredam pé de fazer presença. Se naquele momento as crises na máquina governamental, nos meios empresariais e na base parlamentar do governo eram, como afirmamos, “apenas amostras das turbulências em gestação”, agora elas se transformaram em tornado que ameaça levar de roldão a aliança governista.

Os partidos aliados do governo parecem convencidos de que não devem mais se fiar nas perspectivas de melhoria da economia e transitaram dos “reajustes estratégicos”, com vistas a preparar-se para “qualquer cenário”, para a busca “frenética” de opções e posições que lhes permitam impor suas próprias alternativas aos demais. O desandar da briga de botequim entre ACM e Jader Barbalho é apenas a ponta do iceberg da divisão das forças de sustentação do governo, embora para efeitos externos apareça como desforço eminentemente pessoal.

Em lugar da “hipótese milagrosa” do melhor cenário, um dos prognósticos do início de 2000, em que “a santa aliança em torno do presidente pode(ria) ser refeita”, temos neste final de ano que tal cenário otimista não passou mesmo “de miragem no deserto”. Há um presidente abandonado, não mais ouvido ou cheirado, a não ser por formalidade burocrática; o centro das decisões políticas do PSDB transfere-se para o palácio dos Bandeirantes, que prefere navegar só do que mal acompanhado; a aliança de sustentação do governo de fato terminou, embora ainda seja possível mantê-la no terreno da aparência e da formalidade, e na prática descambou para uma guerra intestina, sem regras e sem quartel. O governo e seus aliados perderam a iniciativa política e passaram a ser pautados pelas oposições, apesar destas ainda se manterem dispersas e também surpresas com a própria situação.

Na verdade, as oposições vencedoras conquistaram a vitória menos por seus méritos estratégicos e táticos do que pelo referencial histórico de oposição do PT e dos partidos que o apoiaram no primeiro turno de 1989. Foram o poste que o eleitorado enxergou para depositar suas esperanças e demonstrar sua ira. O deslocamento da base do eleitorado para a esquerda forçou os setores moderados do PT e da esquerda em geral a adotarem uma postura mais aguerrida de contestação a FHC e seu governo. E, a não ser que ocorra uma guinada verdadeira nas políticas do governo, totalmente diferentes dos ensaios populistas e postiços do Planalto, nada indica que aquela propensão popular se modifique e abra campo para composições moderadas. Não por acaso, as supostas “maluquices” do governador Itamar só têm lhe rendido dividendos políticos e ele agora sai na frente na exigência de uma Assembléia Constituinte. Sabe que qualquer mudança mais séria nas políticas governamentais baterá de frente com o arcabouço jurídico montado nestes últimos dez anos, que terá de ser reformulado.

Assim, da mesma forma que em outros países, principalmente da América Latina, no Brasil, o ciclo iniciado com Collor e continuado por FHC pode estar chegando ao fim. Indícios: vitória do PT e das esquerdas nas eleições municipais; disputas e divisões no interior do bloco governista; dificuldades de FHC para levar a cabo, com a mesma tranqüilidade de antes, as reformas institucionais; e crise econômico-social, que teima em crescer mais velozmente que os programas compensatórios e as bolhas de crescimento econômico. Por sorte do governo, o povo brasileiro não decidiu ainda realizar manifestações ao estilo dos equatorianos, peruanos, bolivianos e argentinos, embora já realize ensaios. Talvez por isso, e por via das dúvidas, os governistas procurem adaptar-se às novas tendências, com algumas de suas lideranças transformando-se em paladinos da erradicação da pobreza. Até o presidente, não se sabe se por sarcasmo ou cinismo, tornou-se recentemente garoto propaganda do Programa Bolsa-Escola. Não deixa de ser instigante.

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