Começou o terrorismo

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Começou o terrorismo, n. 294, 04 mai. 2002.

 

 

Dois bancos de investimento norte-americanos comunicaram aos seus clientes que houve uma elevação no risco de aquisição de papéis da dívida externa brasileira. Motivo: o crescimento da candidatura Lula nas pesquisas de opinião pública.

O absurdo da interferência foi de tal ordem que até o ministro Malan foi obrigado a contrapor-se a ela, acentuando que todos os candidatos eram “responsáveis”. Quem quer que seja o vitorioso, deverá, segundo ele, prosseguir com as políticas implantadas no país. O candidato Serra não pôde deixar de dizer que as agências de risco têm cometido erros constantes, acrescentando que ainda é muito cedo para saber quem vai vencer. E os candidatos Ciro e Garotinho reiteraram que os brasileiros já estão maduros para não cometer “aventuras”.

O PT e o candidato Lula foram os únicos a repudiar o ato como uma interferência indevida nas questões internas brasileiras e como uma clara manobra especulativa. De qualquer modo, a reação dos candidatos e do próprio governo obrigaram aqueles bancos de investimento a acrescentar que sua recomendação estava mais relacionada a problemas econômicos (elevação dos preços do petróleo etc) e financeiros (queda nos investimentos externos) do que com problemas políticos. O recuo foi evidente, mas não houve qualquer desmentido explícito. Na verdade, os bancos apenas acrescentaram às motivações políticas da recomendação riscos econômicos e financeiros que o governo FHC finge não ver ou não existirem.

No entanto, não deve haver dúvida de que essa ação dos dois bancos norte-americanos foi apenas o primeiro movimento do capital financeiro para testar o grau de terrorismo que deve utilizar contra o candidato popular no curso da campanha. Para os magnatas das finanças mundiais, se não estava claro, agora está, que o governo FHC tem como parâmetro a “responsabilidade” que Lula apresentar diante do prosseguimento das políticas implantadas no país de acordo com as receitas do FMI. Também ficou visível que Serra pode avaliar como correta uma futura avaliação de risco, principalmente quando se tornar evidente a possibilidade da vitória lulista. E que os demais candidatos também podem reavaliar a maturidade do povo brasileiro diante da provável “aventura” de eleger Lula.

Como resultado, no momento em que a candidatura Lula demonstrar sua possibilidade real de vitória, sua proposta de mudar a política econômica e social tornar-se-á uma “irresponsabilidade” e uma “aventura” mais do que suficiente para que governo, Serra, Ciro e Garotinho considerem corretas, justas e adequadas as apreensões do capital financeiro internacional. Assim, não deveria haver dúvida de que a perspectiva que os brasileiros têm pela frente é de novos testes contra a campanha Lula, até que os financistas internacionais tracem uma política definitiva de terrorismo massivo para desestabilizar e destruir a candidatura popular.

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

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