Com limite e com razão

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Com limite e com razão, n. 357, 02 ago. 2003.

 

 

As declarações do líder do MST, João Pedro Stédile, sobre a necessidade dos camponeses, como maioria social, se unirem para mudar a correlação de forças e vencer a minoria social dos latifundiários, desencadearam um terremoto político na grande imprensa. Embora tais declarações não contenham novidade alguma (elas devem ter sido repetidas à exaustão pelos líderes populares, há vários anos), é preciso examinar com atenção os motivos que, justamente agora, levaram os tambores de guerra a rufar.

Por um lado, acuados pelo desespero de não ter onde trabalhar e plantar, os sem-terra vinham intensificando as ocupações de terras, o único tipo de ação que sensibiliza, para o bem ou para o mal, as diferentes forças sociais e políticas em que se divide a sociedade brasileira. Além disso, vieram à tona os sem-teto, ao mesmo tempo em que setores do funcionalismo se pronunciavam contra a reforma da Previdência e os metalúrgicos e outras categorias se movimentavam contra o aumento do desemprego.

Por outro, o governo Lula aumentava os sinais de que, debelada a inflação, relativamente estabilizado o câmbio, recuperadas em parte as linhas de financiamento internacional e criadas as condições para a queda dos juros, estava disposto a iniciar uma virada. Ou seja, voltar-se para o crescimento econômico e a aceleração das políticas sociais, com o foco principal voltado para erradicar a fome, elevar significativamente as taxas de emprego e romper os gargalos infra-estruturais que obstaculizam o desenvolvimento e a integração sul-americana. Além da ampliação do raio de ação do Programa Fome Zero, da destinação de mais de cinco bilhões de reais para a economia familiar rural, de medidas preliminares para a instituição do micro-crédito e de algumas outras diretivas no mesmo rumo, o governo havia intensificado o debate para entrar com mais firmeza na reforma agrária.

Tudo isso parece haver sido demais para aquelas forças sociais e políticas que já tinham se convencido de que Lula estava ai para continuar a obra de FHC, sob nova roupagem. Realizaram um típico movimento de flanco. Atacaram aquilo que lhes parece menos defensável, do ponto de vista da legalidade, que são as ocupações (ou “invasões”, como chamam) e outras ações, algumas de puro desespero, realizadas pelos sem-terra, sem-teto e sem-nada. Como complemento, a Volks e a GM ameaçaram elevar o desemprego.

Bem vistas as coisas, o objetivo central dos movimentos de flanco de setores das classes dominantes consistiu em chantagear e emparedar o governo, tentando forçá-lo a reprimir os movimentos sociais e recuar de sua decisão de agilizar a reforma agrária e outras medidas que beneficiam os setores populares.

Assim, estava enganado quem pensava que tudo eram flores entre o governo Lula e tais setores dominantes. Do ponto de vista popular, isso significa que os setores populares organizados devem levar seriamente em conta seus inimigos e o contexto em que travam suas lutas. Isto é, suas lutas precisam ser realizadas com os limites e a razão impostos pela correlação real de forças e pela necessidade de impedir que as classes dominantes se aproveitem de qualquer suposto deslize para isolá-los das grandes massas do povo.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político

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