Coincidências

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Coincidências, n. 392, 10 abr. 2004.

 

 

Quando a coincidência é muita, até o diabo desconfia!

Só para começar pelo mais bombástico, houve o “caso” Waldomiro Diniz. A isso se seguiu o ataque desabrido da oposição conservadora, tentando emplacar uma CPI, apesar das medidas imediatas do governo. Para tornar mais turvo o ambiente, estouraram movimentos reivindicatórios diversos, incluindo a greve da Polícia Federal, que ainda permanece. PT e aliados do governo exigiram mudanças na política econômica. Promotores públicos vieram à luz, conspirando para “ferrar o governo”. Famílias de militares fizeram manifestação exigindo melhoria salarial. E pesquisas de opinião apontaram queda na popularidade do governo.

Essa lista não é completa. Mas, para ver seu tamanho, vale a pena citar o que veio à tona em apenas três dias desta semana. O Brasil foi acusado de querer utilizar a energia nuclear para fins bélicos e o ex-presidente FHC fez críticas abertas ao governo Lula. Por outro lado, o MST ocupou várias fazendas, inclusive um reflorestamento para produção de celulose, enquanto os funcionários do Incra paralisaram os serviços, reivindicando plano de cargos e outras melhorias. E o governo do Rio de Janeiro obrigou a Petrobras a mudar seu projeto de construção de um oleoduto, acentuando a impressão de que o governo federal penaliza os fluminenses.

Para completar, o Departamento de Estado dos EUA instou o governo brasileiro a permitir as inspeções da Agência Internacional de Energia Nuclear, exigência corroborada pelo jornal inglês “Financial Times” ao afirmar que “o governo esquerdista” brasileiro deverá sofrer “pressão internacional crescente” para “permitir inspeções mais completas em seu programa de energia nuclear”.

Muitos dos fatos acima possuem sinais contrários e, aparentemente, nada têm a ver uns com os outros. Porém, a boa política indica que não é comum que fenômenos desse tipo coincidam em cascata, e num curto espaço de tempo. Se, ainda por cima, eles forem coadjuvados por ameaças disparatadas, como é o caso das acusações ao programa nuclear brasileiro, é indispensável ligar o desconfiômetro e descobrir o que está acontecendo nas entranhas da sociedade para alimentar fenômenos que parecem tão desconexos.

Uma coisa parece certa: a oposição conservadora trabalha para desestabilizar o governo e a “boa vontade” dos círculos dominantes globais esgotou-se. Ou alguém pensa que a “pressão internacional crescente”, anunciada pelo “Financial Times”, refere-se mesmo ao programa nuclear?

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

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