Cinzas

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Cinzas, n. 283, 16 fev. 2002.

 

 

O Carnaval, além de servir para o povão e, mais ainda, os potentados, se divertirem, bem que impediu que alguma idéias incômodas tivessem curso e fossem melhor conhecidas. Por exemplo, os economistas Bresser e Nakano
escreveram um texto sobre a situação econômica brasileira, propondo várias medidas que devem encher de horror a equipe econômica de FHC.

Eles dizem: a) que o endividamento externo está no limite, b) que as modestas taxas de crescimento do produto interno bruto e o acúmulo do passivo externo, em mais de 200 bilhões de dólares, torna o modelo econômico vigente
insustentável, c) que a valorização do Real tem sido resultado de uma ação premeditada do Banco Central, e d) que a conseqüência mais palpável dessa política foi a queda do superávit comercial, de 10 bilhões de dólares, em
1994, para um déficit de 8 bilhões de dólares, em 1997, aumentando exponencialmente a dependência externa do Brasil.

Bresser e Nakano, como se sabe, não são petistas e, nem sequer, oposicionistas. São tucanos de carteirinha e têm ocupado posições importantes nas administrações federal e estadual do PSDB. Mas eles parecem preocupados que a moléstia argentina nos atinja, e procuram encontrar saídas. Propuseram: a) o aumento dos incentivos às exportações (coisa que o governo já vem fazendo, embora sem o retorno esperado), b) a reestruturação produtiva do país, c) maior interferência do Estado na economia, d) orientações específicas sobre a entrada de capitais externos no país, e e) redução da taxa de juros em 40%.

Em outras palavras, eles não propõem nada que não possa ser feito sob o capitalismo, embora várias de suas medidas possam chocar-se com os interesses das corporações multinacionais, que passaram a dominar a economia brasileira (mais de 50%, é verdade?), desde que Collor iniciou, e FHC levou avante, a reestruturação produtiva sob o signo do neoliberalismo. Então, pelo simples pecado acima, ou as críticas e propostas de Bressser e Nakano serão jogadas no baú do esquecimento, ou a turma do grupo FHC-Malan virá com armas e bagagens para desmontá-las.

Qualquer que seja o caso, elas demonstram que a propalada unidade tucana não passa de ficção e que as divergências internas podem ser mais profundas do que normalmente se imagina. Ditas num momento em que as candidaturas dos partidos da aliança governista entram na reta das definições, Bresser e Nakano podem haver alertado para o fato de que nos céus existem muito mais coisas do que os aviões de carreira. Vamos aguardar as cinzas do carnaval de 2002 assentarem, para descobrir do que se trata.

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

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