China, Vietnã: outro mundo

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WPO | ART | CON | China, Vietnã: outro mundo; 2002.

 

 

Estive na Ásia Oriental no momento em que os Estados Unidos iniciavam seus bombardeios contra o Afeganistão, pressionavam todos os países do mundo a dar-lhes apoio incondicional e o mundo ingressara numa crise recessiva profunda. Os efeitos dos atentados de 11 de setembro sobre a já declinante economia mundial mostravam-se terríveis, com o comércio mundial contraindo-se e as melhores estimativas falando em 1% de aumento em 2001. As taxas de crescimento econômicas da maioria dos países caíram para 0,5 a 1,5%, com previsões nada otimistas para 2002.

Taiwan e Singapura foram as regiões mais afetadas, em vista do colapso da indústria tecnológica do Japão e dos Estados Unidos. Coréia, Hong Kong, Tailândia, Malásia e Indonésia, antigos tigres e novos países e regiões industrializados, viram seus ritmos de crescimento econômico serem bruscamente reduzidos, no momento em que começavam a recuperar-se dos danos causados pelas crises financeiras entre 1997 e 1999.

O Vietnã e a China também viram suas economias afetadas. O Vietnã exportava 60% de sua produção para os Estados Unidos e boa parte das suas receitas externas vinha do turismo norte-americano. As exportações sofreram um baque e o turismo foi seriamente prejudicado, com o cancelamento de vôos entre Nova York e Cidade Ho Chi Min. A taxa de desemprego, que havia caído de 7,4% em 1999 para 6,5% em 2000 e estava caindo ainda mais em 2001, com a criação 1,4 milhão de empregos, ameaçava elevar-se novamente. O PIB poderia não alcançar a esperada taxa de 7,5-8%.

A China, por sua vez, que exportara 11,3% a mais entre janeiro e abril de 2001, teria que se contentar com uma expansão de “apenas” 7% nesse campo, enquanto seu produto interno bruto também cresceria “somente” 7,5%, contra a previsão inicial de 8,5%. Essa queda de 1% no crescimento do PIB poderia representar a perda de dois milhões de postos de trabalho, elevando para 4% a taxa de desemprego do país.

Foi nesse contexto que se realizou a reunião de cúpula da APEC – Cooperação Econômica da Ásia do Pacífico —, em Shanghai, em outubro de 2001. Os Estados Unidos pressionaram para que a reunião tomasse como centro o debate sobre o terrorismo. No entanto, a maioria dos países participantes considerou que, no baixo nível de desenvolvimento de grande número de países e nos aspectos negativos da globalização, como o aumento do desemprego, da miséria e da falta de perspectivas no futuro, residiam as principais fontes do terrorismo. Assim, a reversão da crise econômica, a retomada do desenvolvimento e a superação dos aspectos negativos da globalização foram os temas centrais daquela cúpula, que incluiu a proposta de nova rodada global de negociações comerciais, adotada logo depois pela OMC, em Doha-Qatar.

Se as cúpulas da APEC e da OMC foram uma demonstração da articulação dos países em desenvolvimento e dos países pobres para tratar as questões do desenvolvimento e da globalização a partir de suas necessidades, isso não resolvia o problema da crise em cada país. Nesse sentido, embora em escalas bem diferentes, Vietnã e China, além de possuírem uma série de políticas de desenvolvimento semelhantes, também tomaram medidas rápidas e parecidas para enfrentar os novos desafios da crise global. Em termos sucintos, ambos adotaram, como medidas de enfrentamento da crise e de continuidade de seu ritmo de crescimento, a elevação da renda da população, o estímulo ao consumo doméstico, a adoção de políticas fiscais ativas, o aprofundamento das reformas, a manutenção dos investimentos estatais, o encorajamento a investimentos não-estatais e a perseverança na competição internacional.

O Vietnã manteve 70% de sua renda total dedicada ao consumo, de modo que o padrão de vida da população continuou aumentando. A elevação da renda tem sido obtida através de programas de criação de novos empregos, seja por meio de investimentos nas áreas rurais, reciclagem profissional nas zonas urbanas e programas de desenvolvimento das regiões montanhosas atrasadas, seja ainda por meio de investimentos em infra-estrutura, relocação populacional e programas de proteção aos inválidos de guerra, famílias dos mártires e aposentados. Os investimentos de capitais situaram-se acima de 30% do PIB, sendo 18-20% de investimentos estatais e 10-12% de investimentos não-estatais, aí incluídos os externos da ordem de 10 bilhões de dólares. Para elevar suas exportações, os vietnamitas se esforçaram para ampliar as vendas de produtos industriais, como eletrônicos e componentes, ao mesmo tempo que mantiveram seus níveis de exportação de borracha, castanha de caju, produtos aquáticos e café.

Na China, já em outubro de 2001 as pensões dos aposentados e do seguro desemprego, assim como os salários dos funcionários públicos, foram aumentados em 80 yuans mês, enquanto era instituído o 13º salário. No intuito de elevar mais rapidamente as rendas mais baixas, o governo reduziu ou isentou de imposto os rendimentos anuais entre 50 mil e 100 mil yuans (6 a 12 mil dólares), rebaixou as taxas e impostos sobre os pequenos produtores agrícolas, estendeu aos trabalhadores rurais os benefícios dos trabalhadores urbanos, universalizou o sistema de seguro desemprego e ampliou o sistema de renda mínima para os 30 milhões de chineses que ainda viviam abaixo da linha da pobreza.

Com esse conjunto de medidas, o poder aquisitivo da população cresceu cerca de 30%. Para estimular o consumo, os feriados nacionais foram ampliados para uma semana inteira e os eventos artísticos, culturais e de negócios multiplicaram-se para aumentar o turismo interno. Além disso, a estabilidade das taxas de juros, o aumento dos créditos para as pequenas e médias empresas e o controle e direcionamento dos créditos de consumo para a aquisição de moradias e investimentos em educação representaram outros importantes atrativos de consumo.

Os investimentos estatais, por sua vez, concentraram-se em obras estratégicas de grande vulto. A hidrelétrica das Três Gargantas, o desvio de 38-40 bilhões de metros cúbicos anuais de águas do rio Iangtsé para as terras secas do norte, a recuperação do meio ambiente, a preparação de Beijing para os Jogos Olímpicos de 2008 e o desenvolvimento cientifico e tecnológico são exemplos significativos desses investimentos. Apenas na importação de equipamentos e produtos de alta tecnologia a China deve despender 1,4 trilhão de dólares até 2005, enquanto 84 bilhões de dólares serão destinados ao meio ambiente.

Dessa forma, enquanto no resto do mundo boa parte dos governos continuou aplicando políticas recessivas para enfrentar os desafios da crise econômica mundial, o Vietnã e a China estimularam a expansão de seu próprio mercado interno como principal alavanca para manter seus programas de desenvolvimento. Isso permitiu ao Vietnã crescer a taxas superiores a 5%  entre 1986 e 1992, e acima de 10% após 1992. Quanto à China, ela quadruplicou seu produto interno bruto e mais do que dobrou a renda de sua população, entre 1980 e 1996. Ambos mantiveram, em 2001, suas taxas de crescimento moderadamente rápido, entre 7% e 8%, independentemente da crise mundial. E, pelos indicadores dos primeiros meses de 2002, continuarão mantendo esse ritmo. É, realmente, um outro mundo.

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