Chega de Marx!

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Chega de Marx!, n. 168, 10 nov. 1999.

 

 

Sempre teve gente fazendo prosa sem saber. Mas nem sempre houve quem lesse mais Marx por ser mais velho, como alguns sábios juramentados que vieram à luz recentemente.

A exemplo de Roberto Campos, dizem que Marx foi um analista incomparável do capitalismo de seu tempo.  Entretanto, como o capitalismo mudou, o que disse não serve mais. Disse, por exemplo, que o capitalismo estaria sempre em permanente mutação, mas os sábios dizem que Marx errou porque o capitalismo mudou. Devem estar certos.

Marx afirmou que essas mudanças teriam como base a concorrência capitalista e a revolução das forças produtivas. Nossos sábios falam de competitividade e revolução tecnológica. Marx disse que essa revolução técnica capitalista reduziria a força de trabalho necessária e criaria uma massa de deserdados. Os sábios falam de desemprego tecnológico, exclusão social e liquidação da pobreza através de cestas básicas. Devem estar com a razão.

Marx considerava que a acumulação capitalista criaria um enorme excedente de capital, concentrado e centralizado nas mãos de uns poucos, que seriam levados a exportar seu modo de produção para todo o mundo e a criar um dinheiro fictício para valorizar seus lucros fora da produção. Mas os sábios dizem que globalização é outra coisa e dissociam a especulação financeira da ação das grandes corporações empresariais. O sistema financeiro, pilotado pelo FMI, é que comandaria as corporações, e não o contrário. Bastaria enquadrar a circulação de capital e o capitalismo estaria domado. Devem ter razão.

Os conceitos de classes e luta de classes não foram criação de Marx, mas nossos sábios dizem que ele inventou esse negócio para justificar suas teorias sobre o capitalismo. Como este teria mudado, as classes não mais existiriam. Portanto, falar nelas, em sua luta, ou em ruptura com o capitalismo, seria puro golpismo armado, saudosismo de um Marx ultrapassado.

Assim, chega de Marx! Tudo por uma terceira via que civilize o capitalismo, destaque seu papel social e garanta liberdade e democracia! É verdade que isso já foi dito no início do século, quando o capitalismo atingiu sua fase imperialista. E foi repetido quando o capitalismo criou a Estado do bem-estar social, sob a social-democracia, para fazer frente à expansão comunista. Mas não deixa de ser irônico que seja dito outra vez, justo no momento em que o neoliberalismo já não consegue camuflar as contradições do capitalismo  –  aquelas que Marx apontava  –  por sábios que se autoproclamam seus maiores leitores.

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