Cenários preocupantes

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Cenários preocupantes, n. 391, 03 abr. 2004.

 

 

Os sábios econometristas acreditavam na estabilidade através dos juros altos, carga tributária pesada, câmbio flutuante, superávits primários elevados e arrocho nos investimentos públicos. Como não fazia parte de suas premissas o estouro das reivindicações salariais, que tendem a desbalancear as equações que montaram, agora devem estar se perguntando onde erraram.

Com uma produção relativamente estagnada, ou seja, de escassez na ponta da oferta, a elevação dos salários deve causar não apenas desequilíbrios nos orçamentos públicos, mas também forte pressão sobre a demanda. Esta pressionará os preços, elevando a inflação. E, a não ser que o governo endureça o jogo contra uma renda há muito reprimida, sangrando sua própria natureza, dificilmente evitará a cascata das reivindicações salariais.

Dizendo de outro modo, toda a equação de estabilidade baseada em pressupostos monetários pode ir por água abaixo, justamente pela ausência de crescimento na oferta de bens. E toda a suposta credibilidade, obtida com aquela equação, entrará em crise. Se os mercado financeiros já estão nervosos com crises políticas artificiais, imagine-se como ficarão, assistindo concessões a movimentos sociais, que tendem a aumentar e colocar em xeque alguns aspectos da macroeconomia atual.

Os cenários são, pois, preocupantes. No entanto, o problema da economia brasileira não consiste em fazer retornar a inflação para incentivar o crescimento. Nem mesmo abandonar a austeridade fiscal para elevar os investimentos públicos e privados. Ou limitar-se a reduzir juros e impostos, embora isto seja indispensável. Seu problema reside em pelo menos duas questões chaves: primeiro, elevar a taxa de investimentos públicos e privados, na pior das hipóteses, a 25% do PIB, para retomar um crescimento sustentado; segundo, ampliar de modo consistente a produção (oferta) de bens de consumo de massa, para evitar pressões inflacionárias e, ao mesmo tempo, ampliar as oportunidades de trabalho e de emprego.

Como o setor privado não investe se não for alavancado pelo setor público, este está diante da necessidade de elevar sua participação na taxa de investimento, através dos excedentes rubricados como superávits primários. E como a produção de bens de consumo de massa, nas atuais condições brasileiras, só pode aumentar com a expansão das potencialidades da chamada economia informal ou popular, o poder público terá que demonstrar criatividade e ousadia para liberar esse setor das amarras que impedem sua ampla participação na economia. Assim, se os cenários são preocupantes, há soluções à vista, se elas forem adotadas antes que a crise se instale de verdade.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

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