Cenários instáveis

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Cenários instáveis, n. 121, 11 dez. 1998.

 

 

Os cenários políticos brasileiros continuam instáveis e nada indica que possam estabilizar-se. A base de sustentação do governo entrou em processo evidente de esgarçamento, não somente surdo, mas com alaridos e golpes entre as partes envolvidas. A derrota do governo na MP da previdência do funcionalismo foi só a manifestação factual do buraco que se abriu sob os pés do Planalto. E os recuos de FHC e equipe na MP das entidades filantrópicas é somente o indício da continuidade das turbulências internas.

As dificuldades governamentais crescem à medida que as disputas entre os diversos grupos que apoiam FHC não se restringem a simples problemas de fisiologia política, mas têm como base principal a divisão do espólio das estatais e dos recursos públicos, em processo de encolhimento em virtude das conseqüências perversas da política econômica levada a cabo por FHC-Malan e companhia limitada.

Assim, não se pode esperar que a presente instabilidade amaine com o fim dos atuais mandatos e a posse do novo Congresso. É até possível que uma parte dos novos congressistas dos partidos aliados do governo se mostre resistente aos pequenos favores fisiológicos, mas isto estará certamente associado a uma resistência também maior aos projetos governamentais, oriunda da disputa pelo grande bolo da riqueza nacional e, também, da crescente pressão das bases populares.

Não se pode descartar a hipótese de que o movimento social comece a demonstrar publicamente sua insatisfação com a situação vigente. Este final de ano está assistindo a movimentos espontâneos de diferentes espécies, sejam de estudantes indignados com a hipocrisia dos governantes, seja de categorias profissionais que já não suportam mais serem tosquiadas sem berrar. Os primeiros meses de 99, cuja perspectiva é de aprofundamento da recessão já presente na economia, podem eventualmente ver crescer tais manifestações, aumentado a instabilidade social e política e colocando o governo ainda mais contra a parede.

Ante, pelo menos, a convergência desses dois fatores de instabilidade social e política, FHC talvez se veja, então, na contingência de tomar partido por um dos grupos em disputa. Talvez tenha que despir-se, finalmente, da veste social-democrata, colocar de lado seu papel de moderador imperial e assumir em definitivo não só a vestimenta, mas também sua verdadeira natureza pefelista.

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