Cenários eleitorais

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Cenários eleitorais, n. 410, 14 ago. 2004.

 

 

Para espanto de muitos, na política, como em vários outros ramos da vida, nem sempre dois mais dois são quatro. É evidente que a divisão da burguesia e o apoio de uma parte dela a Lula foi fundamental para a vitória do PT e vem sendo fundamental para uma certa estabilidade política. Mas isto não significa que a burguesia, ou parte dela, não trabalhe contra Lula e não tente desestabilizar o governo.

Podemos, então, tanto dizer que a burguesia apoiou, quanto que ela foi contra Lula. Como podemos tanto dizer que a burguesia apóia o governo, quanto que está contra ele. Diante da ausência de uma força social popular poderosa, pouco adiantaria que Lula e o PT fizessem mil cartas aos banqueiros e financistas internacionais, se a burguesia não estivesse desunida. Esta simplesmente faria como fez em 1989, 1994 e 1998, e derrotaria o PT.

O mesmo pode dizer-se a respeito dos atuais cenários eleitorais. Se o PT vencer as eleições, pode-se tanto concluir que houve uma aprovação da política econômica, quanto que houve uma desaprovação. Se a esquerda do PT demonstrar capacidade e sair fortalecida da campanha eleitoral, a leitura será de desaprovação da política econômica. Se a esquerda do PT sair derrotada, não restará dúvida de que houve uma aprovação da política seguida até agora.

Por outro lado, se o PT for eleitoralmente derrotado, as conclusões tornam-se ainda mais complexas. Pode-se deduzir que houve uma desaprovação da política econômica, mas uma desaprovação pela direita e não pela esquerda. Isso também pode significar uma aprovação das políticas neoliberais defendidas pela PFL e PSDB. Em qualquer dos casos, por mais que se procure identificar a atual política econômica com a política neoliberal de FHC, a derrota eleitoral do PT será certamente a vitória da direita política. Teremos, então, uma dupla derrota da esquerda do PT, e da esquerda em geral.

Se esse cenário se concretizar, pode-se jogar fora qualquer expectativa de que a derrota eleitoral do PT ajudará Lula a se decidir pela mudança da política econômica. Tal derrota será uma demonstração de que a correlação de forças pendeu para a direita. A burguesia – melhor seria dizer aquela parte da burguesia que ainda hoje apóia o governo Lula, e que já é menor do que foi no auge da campanha de 2002 – começará a migrar rapidamente para o seu berço preferido, encurralando o governo e a esquerda.

Mantendo-se a desmobilização social, não haverá força suficiente no governo nem mesmo para sustentar algumas das atuais políticas sociais. A tática de cooptar Lula será jogada no lixo, como imprestável. Prevalecerá a tática de livrar-se dele, como uma parte da burguesia sempre quis e continua querendo.
Wladimir Pomar é escritor e analista político.

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