Catastrofismo e eleições

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Catastrofismo e eleições, n. 207, s/d.

 

 

Alguns leitores reclamam que tenho avaliado de forma catastrófica o governo FHC. Outros afirmam que dou muita atenção às eleições: mais importante seria voltar-se para a mobilização social. E, de quebra, o vice-presidente Maciel, que certamente não lê o que escrevo, assevera que será uma bobagem federalizar a campanha eleitoral, já que o povo está voltado apenas para os problemas dos burgos.

Vamos por partes. Não acredito que a situação de FHC seja de queda iminente. Suas políticas e reformas neoliberais é que são de natureza desestabilizadora. As incertezas e a instabilidade, por isso mesmo, têm sido uma constante de seu governo. E tendem a agravar-se à medida que os problemas econômicos, a desagregação social e as disputas políticas se intensificam. Como explicar que, dominando o Congresso, tendo a arma imperial das medidas provisórias, e contando com o beneplácito amortecedor da mídia, FHC gere 70% das notícias ruins, como diz um de seus ministros?

Nisso não há catastrofismo algum. Apenas a observação da natureza instável do governo e das possibilidades, nem sempre aproveitadas, que isto abre para a oposição. Por outro lado, a era FHC também se caracteriza pela ausência de fortes movimentos sociais. Nas poucas vezes em que estes se fizeram presentes, agravaram aquela instabilidade. Só recentemente, e de forma paulatina, as grandes massas, em especial os trabalhadores e demais camadas populares, vêm despertando do ilusionismo fabricado pela publicidade mistificadora do Plano Real e começam a realizar grandes mobilizações. É verdade que consideráveis setores da esquerda enfrentaram a mistificação do Real com pouca firmeza. Mas, de qualquer modo, grandes massas só se movem conforme sua própria decisão e seu ritmo, e não pelo desejo voluntarista de grupos ou partidos políticos. A ação política consciente apenas serve para trazer à luz, de forma concentrada, a discussão dos problemas que as classes sociais enfrentam e estimular suas decisões. Nesse sentido, as eleições são um momento especial justamente porque permitem isso.

Entretanto, no quadro histórico brasileiro posterior a 1982, as eleições também têm proporcionado à esquerda, pela primeira vez em sua longa história, conquistar parcelas do poder de Estado, segundo as regras do jogo das próprias classes dominantes. Se a esquerda não aproveita essas novas condições para realizar um trabalho mais consistente com as grandes massas do povo e abrir campo para as mobilizações sociais, isso é outro problema, que não diminui a importância daquelas disputas institucionais.

Nas eleições deste ano, em particular, cerca de 80% dos eleitores dos burgos do país consideram o emprego o principal problema. Em muitos, os desempregos aberto e oculto chegam a 30% e mais de 60% da população vivem abaixo da linha da pobreza. FHC municipalizou a crise e esta federalizou as eleições. Pode ser que muita gente da esquerda não consiga realizar a combinação certa entre o local e o nacional e entre a campanha eleitoral e as mobilizações sociais, mas muitos outros saberão. Se isto acontecer numa escala razoável, os resultados dessa eleição podem representar uma importante mudança na correlação das força políticas do país. Não enxergar isso pode ser catastrófico para a esquerda e para os movimentos sociais.

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