Caso de polícia

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Caso de polícia, n. 282, 09 fev. 2002.

 

 

FHC, decididamente, é um caso de polícia. Depois de haver prometido segurança, com um dos dedos de sua mão, tornou o país um mar de insegurança. E agora, bancando o desmemoriado, transfere para o Congresso a missão de resolver o problema, como se segurança de restringisse à existência de leis mais duras.

Além disso, numa manobra ardilosa, a polícia federal, sob seu comando, e a polícia de São Paulo, sob o comando de um homem de seu partido, fazem chantagem com o PT. Tentam enredar o empresário Sérgio Gomes como suspeito no assassinato de Celso Daniel, e levar a opinião pública a supor tratar-se de um ajuste de contas interno. De uma tacada só, procuram esvaziar a tese do crime político, colocar o PT na defensiva e transformar a ansiedade social por segurança numa ação “suprapartidária”, a ser compartilhada entre o Legislativo, o Judiciário, a sociedade e… o Executivo.

Sentado, assim, no berço da inação, FHC dirá sempre que aguarda as leis que pediu ao Legislativo, a ação firme do Judiciário e a participação decidida da sociedade. Da mesma forma que o secretário de Saúde da cidade do Rio de
Janeiro, que culpa os cariocas pela epidemia de dengue, FHC também acha que a culpa pelo crime organizado, pelo narcotráfico, pela corrupção, enfim, pela violência que grassa em nosso país é da sociedade, mais propriamente da
sociedade pobre que convive diariamente com as diversas formas de criminalidade, que se multiplicam como moscas.

E continuará firme na idéia de que a segurança é um caso de polícia. Porque quer, assim como os partidos de sua aliança de poder, que o povo acredite que segurança se resolve com mais presídios, mais polícia, penas mais duras, delação institucionalizada e, se necessário for, com a utilização das forças armadas, para garantir a tranqüilidade das ruas. No entanto, isso não passa de mais um embuste, isso sim um verdadeiro caso de polícia.

A segurança é, antes de tudo, uma questão política. Depende de ações de política econômica e social, que esvaziem o caldo de cultura da miséria, que empurra a juventude pobre e da classe média para a criminalidade. Depende de ações políticas de moralização pública e privada, que deixem de privilegiar os bandidos de colarinho branco, combatam com firmeza a corrupção nos altos escalões governamentais e nas polícias e tratem todos os criminosos como iguais perante a lei. E depende de políticas claras de reestruturação completa das polícias brasileiras.

Nas condições atuais, a segurança depende fundamentalmente de um Executivo que não seja um caso de polícia e que a trate como uma questão política fundamental. Portanto, se o PT se deixar amedrontar pela chantagem e escorregar na geléia geral “suprapartidária”, sem responsabilizar FHC pelo crescimento da criminalidade no país, seja pelo resultado de suas políticas econômicas e sociais, seja por sua inação diante da corrupção e da desagregação policial, ele estará caindo na armadilha tucana.

Será seqüestrado de sua chance de chegar ao governo central para modificar as causas geradores da criminalidade. E não adiantará chamar a polícia.

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

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