Carnaval 500

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Carnaval 500, n. 184, 06 mar. 2000.

 

 

Tirando as discussões em torno do teto salarial e do salário mínimo, que acabam dando uma visão distorcida do fosso que existe entre, de um lado, as grandes fortunas e grandes rendas de uma minoria —o que ganham os juízes, ministros, deputados e altos funcionários é apenas e tão somente renda mediana— e, de outro, a pobreza, a miséria e a renda ínfima da esmagadora maioria da população, o resto é carnaval.

Este ano, produzido para estimular o oba-oba oficial em torno do descobrimento e colonização deste território que se tornou Brasil, o Carnaval 500 não deixou nem mesmo que a longa entrevista do presidente à revista Época fugisse à regra momesca. Transformou-a em enredo de escola-de-samba de terceira ordem, com adereços, fantasias e alegorias para Stanislaw Ponte Preta algum botar defeito. A bateria atravessou o samba, desandou a harmonia do carro e da ala eleições 2002, e introduziu no meio do desfile um assunto que vivia dizendo ser muito cedo para tratar. Agora, é esperar o bode que vai dar.

Assim, o melhor mesmo é falar das verdadeiras escolas e dos blocos carnavalescos. Ou, pelo menos, daqueles que, na contramão do financiamento e da folia, combinaram alegria, fantasia, ironia e crítica social e política, demonstrando que, apesar do pensamento único, o carnaval popular não morreu nem mesmo no mercantilismo dos sambódromos.

É verdade que grandes escolas de samba, como a Caprichosos de Pilares, a Portela e a União da Ilha, no Rio de Janeiro, ficaram limitadas à crítica forte dos períodos militar ditatorial e collorido. Mas a Mangueira, partindo da escravidão, colocou a luta de classes na passarela, enquanto os blocos espalharam pelas ruas as pilhérias e descontentamentos sobre o império fernandenriquista.

Se o carnaval é uma das oportunidades raras do povo para expressar de forma enviesada o que gostaria de dizer abertamente, é quase certo que os brasileiros não querem a volta do período de chumbo, nem estão contentes com a realidade virtual.

Coincidentemente, pesquisas anteriores ao carnaval apontaram para nova queda na popularidade de FHC, embora ele não tenha cometido qualquer ato desabonador além dos costumeiros. Mas parece haver passado a época em que o povo entorpecido aceitava que alguém quisesse ser dono do mundo, se elegesse Pedro II, se aliasse ao vigário dos índios, e, ainda por cima, proclamasse a escravidão. Do jeito que as coisas vão, se o espírito rebelde que desceu sobre este Carnaval 500 continuar, FHC talvez não consiga sequer virar trem ou estação, quanto mais enredo de louvação.

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