Carcará

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Carcará, n. 129, 12 fev. 1999.

 

 

A situação brasileira está cada vez mais para carcará do que para preá ou calango. O presidente FHC, do alto de sua arrogância e de sua evidente fraqueza, não admite críticas nem reivindicações. Queria conversar com os governadores da oposição sem ser pressionado e sem oferecer nada. Por isso, considerando a Carta de Porto Alegre uma ofensa, endureceu e decidiu não receber os representantes dos sete governadores oposicionistas.

Arranjou um pretexto infantil porque, na realidade, não quer negociar. Negociações sérias com os governadores representarão rever tanto o endividamento dos Estados, quanto as relações do chamado pacto federativo que ele há muito vem tornando um frangalho. Ou seja, representará rever o acordo do governo federal com o FMI. E aí o bicho pega.

Os governadores, por seu lado, têm que tentar a negociação com a União, seja com o presidente, seja com seus prepostos principais, seja com o Congresso. Os Estados estão falidos, não têm condições de manter os serviços públicos pelos quais são responsáveis e, se não conseguirem uma revisão profunda dos termos que o governo federal lhes impôs durante o mandato anterior, serão empurrados para a moratória. E aí o bicho come.

FHC não quer aceitar que a crise é nacional e impõe uma decisão política. Embora ela tenha explodido como uma crise do endividamento estadual, ela é na realidade uma crise do pacto federativo e uma crise geral do país. O Brasil deve mais do que pode pagar e só receberá dinheiro do FMI, para pagar a dívida, se arrochar ainda mais sua produção. Portanto, se reduzir ainda mais sua capacidade de pagamento.

Está no cerco do carcará, claudicando entre o ficar ou correr. Diante disso, FHC não admite que os governadores tentem outra solução, porque sabe que qualquer solução estadual terá que se estender à nação como um todo e se chocará com o FMI. Prefere empurrar os Estados para a moratória, sem considerar que essa atitude só deve acelerar a própria moratória que o país se verá obrigado a declarar, mais cedo ou mais tarde.

Nessas condições, tende ele próprio a ser devorado, conduzindo o país para uma crise institucional. O centro e a direita já trabalham hipóteses de solução, via parlamentarismo ou renúncia, nesta com a posse do vice Maciel. A esquerda ainda prefere concentrar esforços na mudança da política econômica, mas talvez tenha que repensar a possibilidade da crise institucional mais cedo do que imagina. É só prestar atenção no vôo do carcará

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