Canalhas e quetais

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Canalhas e quetais, n. 510, 29 jul. 2006.

 

 

Quando ouço alguém, na esquerda, chamar de “canalhas” ou de outros qualificativos pouco edificantes ex-companheiros de partido ou de corrente, voltam à minha memória tempos e práticas que supunha banidos, depois das dolorosas experiências sofridas durante a ditadura militar.

Nos anos 50 e 60 do século passado, as divergências na esquerda eram geralmente tratadas transformando o lado divergente em inimigo, e adjetivando-o como em geral o inimigo é designado. Ambos os lados, dissidentes e situacionistas, não argumentavam sobre os erros e desvios do outro. Apelidavam-se, mutuamente, de traidores, canalhas, aventureiros, serviçais da burguesia e do imperialismo, revolucionários pequeno-burgueses, oportunistas, corrompidos, e por aí afora. E, não poucas vezes, quando antigos companheiros encontravam-se na mesma calçada, o mais civilizado consistia em fingir que não se viram.

Foi preciso as mãos, as botas e as armas duras e mortais do regime militar para mostrar que, apesar dos erros e desvios porventura existentes na avaliação e na prática políticas dos diversos agrupamentos auto-intitulados de esquerda, a ditadura militar não fazia tal distinção, e catalogava todos como inimigos. E, tratava-os como tais. Pela tortura, igualava indistintamente a esquerda, o centro e a direita da esquerda política. E, também indistintamente, assassinava-os quando achava necessário.

É certo que houve aqueles se bandearam, com armas e bagagens, e mostraram-se verdadeiros traidores e canalhas. Mas isso ocorreu tanto entre aqueles que eram contra qualquer ação armada contra o regime, quanto entre os que haviam pegado em armas. Tanto entre aqueles que lutavam pela reforma pacífica da ditadura, quanto entre aqueles que gostariam de ver o socialismo implantado imediatamente. A luta mostrou que a transformação do militante político em canalha pouco teve a ver com a linha política que até então adotara.

A esmagadora maioria estava na esquerda. As divergências sobre ideologia, estratégias, táticas e formas de luta não podiam ser confundidas com traição ou canalhice. Essa constatação da vida social e política contribuiu para a unificação de tantos grupos díspares na formação do PT. E, em certa medida, permitiu que as divergências no campo da esquerda passassem a ser vistas como diferentes possibilidades, cuja veracidade só poderia ser demonstrada pela prática da luta e da vida.

Esse novo caminho da esquerda brasileira começou a ser rompido quando o chamado Campo Majoritário dominou a direção do PT e impôs, a esse partido, métodos que tratavam os divergentes como inimigos. No entanto, se é verdade que isso foi um erro grave, também é verdade que caem no mesmo erro os que tratam todo o PT, sua nova direção, e mesmo a maioria do chamado Campo Majoritário, como inimigos e, pior, como canalhas e quetais. Isso significa repetir um erro histórico de dolorosa lembrança. É pena.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

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