Cadê a tática?

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Cadê a tática?, n. 221, s/d.

 

 

As eleições municipais demonstraram que a população nutre um “profundo descontentamento” e pendeu para a esquerda na esperança de que esta modifique o “estado de coisas” vigente em nosso país. O resto é, ou deveria ser, conseqüência.

Apesar disso, espanta que a esquerda pareça não se dar conta de que a conjuntura mudou e que o recado das urnas está promovendo uma profunda rearticulação de todas as forças políticas. Todas buscam novas táticas e, ao mesmo tempo, as forças dominantes tentam pautar a tática da esquerda, em especial de seu partido mais representativo, o PT. Se puderem, reduzem o PT a mero “administrador competente” da crise que criaram, enquanto se preparam para derrotá-lo com ironia, até mesmo utilizando FHC como garoto propaganda do Programa Bolsa-Escola.

A grande imprensa procura dourar a pílula, encobrindo o parafuso político e a disputa interna de vale tudo em que se embola o grupo no poder. Faz tudo para desviar a atenção do fato de que a economia do país depende cada vez mais da enfermidade econômica e social da Argentina, dos preços do petróleo (administrados pelas grandes empresas do setor), da volatilidade das bolsas e do câmbio (causada pela especulação financeira), do crescente nervosismo dos investidores internacionais (na verdade, as grandes corporações), e de sabe-se lá mais que vento contra, conforme descobriu Armínio Fraga, presidente do BC.

O governo se contenta com o anunciado crescimento de quase 4% e com a leve reativação do emprego, como se isso fosse a salvação do país. Apesar do resultado das urnas e da instabilidade geral, não pretende mudar uma vírgula sequer de suas políticas fundamentais para reestruturar o país, econômica, política, social e culturalmente, em função dos interesses das grandes corporações empresariais. Como Menem, e agora De La Rúa, na Argentina, prefere afundar a todos nós numa crise ainda mais profunda que a atual.

A esquerda vitoriosa, porém, parece não apreender a natureza da tendência que pode transformá-la em governo central, em 2002. Perde-se na sedução do debate estéril se Lula vai ou não ser candidato, se é melhor a aliança com Itamar, Ciro ou outro, e de como se tornar mais ampla para aliar-se ao centro. Esquece que precisa de um programa concreto, uma tática mobilizadora, capaz de criar uma avalanche social por mudanças políticas e sociais, a começar pelo desmonte democrático, através de uma nova Constituição, da desordem jurídica instituída pelo neoliberalismo dominante.

Sem um programa e uma tática desse tipo, a esquerda dificilmente conseguirá contrapor-se ao esquema dominante. Através de concessões programáticas para aliar-se ao centro, pode até vencer em 2002. Mas ver-se-á amarrada à pauta do ajuste corporativo global. Nessas condições, no máximo conseguirá descobrir que o Programa Bolsa-Escola, um belo e justo projeto, sozinho será incapaz de erradicar a pobreza que assola nosso país.

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