Briga de foice

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Briga de foice, n. 204, s/d.

 

 

Nada mais revelador da briga de foice em que estão envolvidos os donos do poder do que o patético apelo de FHC, no Rio Grande do Sul, por uma trégua. O presidente e o grupo palaciano sentem-se acuados com as denúncias envolvendo o ex-secretário geral da presidência, Eduardo Jorge Caldas, e correm atrás de socorro… da esquerda, da tradicional corrente política alcunhada por eles de neoboba, burra e outras pérolas do mesmo tipo.

Acontece que não é a esquerda quem está municiando os meios de comunicação com informações e documentos que comprometem irremediavelmente, em esquemas de corrupção pública, o homem de maior confiança do presidente durante 15 anos. A esquerda sabia que algo de podre rondava o reino planaltino, já aventara várias vezes essa hipótese, como durante a compra de votos para a reeleição, mas não tinha os documentos probatórios.

Quem os tinha, e os tem, são pessoas do próprio esquema de sustentação do governo FHC. E os ataques a Eduardo Jorge são apenas a face visível da guerra intestina que se trava entre as diversas forças dominantes, com vistas a manter e/ou ampliar a hegemonia sobre o aparelho estatal e suas facilidades, no momento em que a democracia de encenação as obriga a disputar posições municipais, essenciais para a manutenção do poder em 2002.

Para não ficar refém de seus aliados, FHC patrocina a baixa da taxa de juros, manda divulgar notícias sobre a melhoria dos índices de qualidade de vida dos brasileiros, apesar da queda da renda, procura vestir a velha roupagem que jogara fora, fazendo discursos esquerdistas no exterior, recua de seus ataques aos movimentos populares, faz concessões ao MST e sinaliza a possibilidade de unir-se ao PPS e a Ciro Gomes. Mas não muda uma vírgula de suas políticas neoliberais, nem passa ao ataque aberto contra os aliados que procuram minar o seu poder.

Na verdade, FHC quer o socorro da esquerda como mercadoria de barganha para um acordo, no velho estilo das conciliações oligárquicas. Depois de acertados os ponteiros entre elas, a esquerda e o povo que se danem. Mas a esquerda só cairá nessa esparrela se desprezar a história do Brasil e do próprio FHC. Este e suas políticas continuam sendo o alvo principal a derrotar, e as eleições de outubro são uma oportunidade única para conquistar posições estratégicas para os embates posteriores.

Capitalizar os votos dos milhões de descontentes, em cada município, sabendo combinar as questões locais às questões nacionais e calibrar os ataques às políticas antipopulares e antidemocráticas do governo FHC e de seus aliados com propostas que contemplem as aspirações populares por emprego, segurança, estabilidade e melhorias sociais, este é o desafio que a esquerda, o PT em especial, tem à frente. Não é hora de salvar um náufrago que não merece ser salvo.

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