Briga de cachorro grande

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Briga de cachorro grande, n. 185, 15 mar. 2000.

 

 

A burguesia tem a propriedade de ir à guerra quando está em questão o poder, seja o poder sobre o dinheiro, sobre a sociedade ou sobre a política. Ao fim e ao cabo, dá no mesmo: quem tem um consegue outro e acaba reunindo tudo numa coisa só. Por isso, embora sempre procure unificar-se para não permitir aos trabalhadores qualquer naco de poder, a burguesia vive se dividindo, e seus grupos se engalfinhando como cães, por mais poder à custa dos demais.

Há ocasiões em que suas brigas não vão além de rosnados e latidos, como no bate-boca de FHC com ACM, não faz muito tempo. Mas há outras que se transformam em luta de morte, com dilaceramentos que colocam à mostra as entranhas sujas de todo o grupo. Mesmo esforçando-se para imputar à insanidade, crise conjugal, lama de prostíbulo e outros mimos pouco enobrecedores as razões da dissensão feroz, os grupos em disputa mal conseguem esconder seus verdadeiros motivos.

No caso do ataque de honestidade de dona Nicéa Pitta, sua história tem início, meio e fim, coerência, documentos probatórios e, além disso, comprova o que a oposição popular denunciava há muito. Assim, tanto faz que dona Nicéa tenha sido empurrada à denúncia pelas infidelidades ou pela corrupção do marido. Ela apenas trouxe à luz as entranhas sujas da máfia malufista. Junto, a locupletação do grupo empresarial de ACM e, de quebra, a briga de cachorro grande dentro do bloco no poder. Não se pode esquecer que Maluf, Pitta, ACM e Covas são aliados na sustentação de FHC.

Ora, tudo indica que o surto de dona Nicéa foi meticulosamente estudado e planejado, coisa de estado-maior político. Tudo sob medida para enterrar as manobras do malufismo visando continuar com o domínio da prefeitura paulistana e, ao mesmo tempo, para alavancar a candidatura tucana e, é lógico, mudar a correlação de forças para a disputa de 2002. O PSDB paulista se esforça para comandar a luta contra Maluf, Pitta e companhia e, de quebra, para jogar o PFL e ACM nas cordas, constrangendo-os a um acordo pouco favorável.

Mas, como em toda briga de mastim contra pitbull, podem ocorrer pelo menos três cenários. Num, Covas e seu PSDB alcançam seu objetivo de dilacerar a máfia Pitta-Maluf, cacifar seu candidato e impor a ACM uma retirada pouco honrosa. Noutro, ACM pode embolar a briga, participar do estraçalhamento da gangue que domina a capital paulista e, no bom estilo pega-ladrão, soltar denúncias contra o próprio tucanato e virar o jogo. Não por acaso, FHC já fez questão de dizer que é contra o envolvimento de ACM no caso.

Num terceiro cenário, a esquerda bem que poderia usar o porrete do carteiro que vive sendo ameaçado pela fúria dos cães. Como não adianta liquidar apenas o malufismo, deixando ACM livre para morder à vontade e o PSDB se passar de cachorro de madame, valeria a pena responsabilizar ACM por locupletação e FHC por facilitação. Afinal, as falcatruas de seus aliados malufistas jamais foram investigadas ou barradas, embora todos soubessem de sua existência pelas constantes denúncias dos vereadores petistas.

Em tais condições, ou o PSDB paulista esquenta a briga e rompe o bloco no poder, ou sai ganindo com o rabo entre as pernas. Em qualquer dos casos, a esquerda assume a hegemonia da luta pelo esclarecimento de todas as denúncias contra Pitta, Maluf, ACM, FHC, empreiteiras, oligopólios do lixo e outras ventosas de sucção da riqueza social. Isso seria muito bom para a luta popular e democrática. Mas, como sempre, coloca em risco qualquer carteiro que decide tirar proveito de briga de cachorro grande.

 

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