Briga de brancos

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Briga de brancos, n. 182, 23 fev. 2000.

 

 

Mais uma vez, depois do confronto pela maioria parlamentar e pelo comando das comissões e relatorias da Câmara, os partidos governamentais parecem haver selado novo acordo para suavizar as restrições às MPs, reduzir o aumento do salário mínimo e continuar aprovando projetos do governo. As informações sobre os motivos da explosão de ira entre o PSDB e o PFL são desencontradas, mas trouxeram à luz, novamente, a existência de uma disputa surda e perene entre interesses exclusivistas e conflitantes das diversas alas agregadas em torno de FHC.

Nessas condições, os que apenas enxergam a solidez da base governamental e não distinguem os interesses conflitantes que a minam não entendem o “samba do branco maluco” da disputa explícita. E aqueles que, como o senador Roberto Freire, ainda acreditam que a disputa ocorre entre progressistas, como Covas, e conservadores, tipo ACM, apostam suas esperanças numa aliança da esquerda com os ditos progressistas.

Entretanto, não há nada de surpreendente nem nas disputas explícitas, nem nos acordos posteriores. Da mesma forma que estes não significam a paz eterna, aquelas não representam o estalar de uma guerra aberta e duradoura, pelo menos por ora. O que a briga do momento teve de novidade é que ela explodiu no momento em que o grupo no poder esmerava-se em divulgar que os indicadores econômicos, a popularidade presidencial, a harmonia entre os partidos de sustentação do governo e outras perspectivas favoráveis iam de vento em popa. Assim, contra todas as expectativas, a disputa veio à tona com uma virulência aparentemente inexplicável.

Mas esse mistério só existe para os que não sentem o que se passa na base da sociedade, em conseqüência da monopolização da economia e da sociedade brasileiras pelas grandes corporações estrangeiras, da crescente afirmação do autoritarismo disfarçado em detrimento da democracia, do aumento permanente e cruel das massas de deserdados e, no que toca aos setores tradicionais da burguesia e seus representantes políticos, da diminuição das verbas e sinecuras para saciar, pelo menos em parte, seu apetite fisiológico. Cada tostão das receitas deste país tem que ser desviado, cada vez mais, para pagar os compromissos com os banqueiros internacionais. Já não é só uma exigência do FMI. Transforma-se em lei de (ir)responsabilidade fiscal.

Nesse contexto, intranquilidade, incertezas, discrepâncias, divisões e disputas no seio da aliança que sustenta FHC continuarão presentes, tendendo a acirrar-se à medida que novos setores se sentirem excluídos do banquete da globalização. Isso é ótimo para a oposição, se ela colocar lenha na fogueira sem queimar os dedos. Isto é, sem acreditar que a “briga de brancos malucos” é sua própria briga.

 

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