Bodes na sala

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Bodes na sala, n. 203, 18 jul. 2000.

 

 

Os fatos são claros. Eduardo Jorge Caldas Pereira, assessor de Fernando Henrique Cardoso durante 15 anos, encarregado das finanças de suas campanhas presidenciais e secretário geral da presidência da República durante todo o primeiro mandato de FHC, manteve contatos estreitos com o juiz Nicolau dos Santos Neto e com o senador Luiz Estevão, ambos enfiados até a raiz dos cabelos no megaroubo de verbas públicas destinadas à construção do palácio-sede do TRT de São Paulo.

Eduardo Jorge, certamente sabedor do que IstoÉ preparava, confessou que esses contatos estavam relacionados à cooptação de juízes classistas, para evitar sentenças favoráveis aos trabalhadores em ações que batiam de frente com o Plano Real. Também é conhecido o empenho do ex-secretário geral da presidência em sustentar a candidatura Roriz, do grupo de Luiz Estevão, para o governo do DF. Assim, não há como fugir do fato central de que um dos homens de ouro do presidente FHC, que privava de sua confiança íntima, andava metido com uma gangue da pior espécie, mantendo com alguns de seus membros aquilo que, no jargão comum, é conhecido como troca de favores, permissividade propiciada pelo abuso de poder e uso privilegiado de informações.

A questão central consiste, então, em saber até que profundidade essas relações espúrias de Eduardo Jorge chegaram, quais suas ramificações para os lados, para baixo e para cima, e que outros empreendimentos idênticos aos do TRT-SP foram aproveitados para o enriquecimento ilícito dos envolvidos.

Embora seja difícil acreditar na total ingenuidade de FHC, não se pode descartar a hipótese de que, como um ingênuo, ele tenha sido ludibriado, algo aliás comum em homens de vaidade extrema. Entretanto, mesmo que tal hipótese tenha que ser considerada, somente uma investigação em regra pode afastar qualquer suspeita sobre seu envolvimento direto, o que não exclui a responsabilidade institucional do presidente no caso. Afinal, no trato da coisa pública, ignorância e ingenuidade não são argumentos para absolver ninguém.

O resto é bode que estão tentando botar na sala. É verdade que o ministro Martus Tavares curvou-se silenciosamente ao abuso de poder do ex-secretário geral de FHC, ao não discutir com o presidente da República a liberação de verbas sobre as quais já havia suspeição de irregularidades. É verdade, ainda, que os sistemas de votação das bancadas precisam ser revistos para que a assinatura de parlamentares do PT e da esquerda não sirvam de falso pretexto para justificar falcatruas. E pode até ser verdade que a fita de uma conversa do juiz Nicolau Lalau tenha sido obra de gente da gangue de Luiz Estevão. Mas nada disso renega os fatos. E os fatos, apesar dos bodes, ainda mantêm Eduardo Jorge no centro da sala.

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