Atirar no carcará ou no abutre?

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Atirar no carcará ou no abutre?, n. 373, 22 nov. 2003.

 

 

Coincidência ou não, logo após o ministério da Fazenda haver tornado público um documento, culpando os gastos públicos mal feitos pelas distorções de renda na sociedade brasileira (o Estado gasta mais com os ricos do que com os pobres), também veio a público o lucro líquido acumulado, de janeiro a setembro de 2003, por 181 companhias, entre bancos e empresas siderúrgicas, de papel e celulose, veículos e outras, correspondendo a um aumento de mais de 300%, em relação a todo o ano de 2002.

Ou seja, há algo profundamente nebuloso na economia brasileira, uma economia que mal está saindo de um choque recessivo, e que está retomando suas atividades industriais sob um manto de dúvidas quanto às suas possibilidades reais de ingressar num processo sustentado de desenvolvimento. No mesmo período em que aquele grupo de empresas, voltadas fundamentalmente para as atividades financeiras e para o comércio externo, apresentou um verdadeiro espetáculo de crescimento, cresceu o desemprego, caiu o poder aquisitivo da maior parte da população, inclusive da classe média, contraiu-se o mercado interno e a esmagadora maioria das pequenas e micro empresas sobreviveu sob todo tipo de sufoco.

Assim, embora não se possa desconsiderar a possibilidade da subvenção pública da educação e da saúde dos ricos ter sua cota de responsabilidade nas disparidades sociais, certamente não é aí que se encontra a raiz dos problemas. Na verdade, mais do que gastar mal e pouco com os pobres, o Estado brasileiro deixou de ter poder efetivo para corrigir os brutais desvios do mercado, para orientar os rumos do desenvolvimento e evitar o aumento violento das polarizações econômicas e sociais.

Nas atuais condições brasileiras, é até possível dar um pouco mais de migalhas aos pobres, às custas do empobrecimento das classes médias e, talvez, conseguindo limitar o acesso dos verdadeiramente ricos às universidades públicas. Mas isto não terá efeito algum sobre o real e imenso desequilíbrio entre as grandes empresas competitivas e o quadro de dificuldades e quebradeira dos pequenos e micro empreendimentos. Sem recursos para investimentos públicos e sem instrumentos efetivos de intervenção na vida econômica, como as empresas estatais, o Estado nacional brasileiro não possui poder para reequilibrar o mercado.

Isto é, não tem poder para tirar todo o proveito da competitividade das grandes empresas no mercado internacional, para forçar os bancos a um papel efetivo no crédito à produção, nem para estimular o crescimento massivo das pequenas e microempresas para construir um mercado interno forte. Fazendo uma paródia, o documento do ministério da Fazenda atirou num carcará e nem viu o abutre que está comendo o nosso fígado.

 

Wladimir Pomar é analista político e escritor.

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