Atenção: o mercado pirou

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Atenção: o mercado pirou, n. 243, s/d.

 

 

De um momento para outro, o Mercado começa a ser criticado pelos que o consideravam infalível. Analistas proclamam que o Mercado está histérico. Malan se queixa que o Mercado não está entendendo os fundamentos da economia brasileira, enquanto Cavallo o xinga por não se adaptar a seus planos. Como cegos em meio ao tiroteio, confessam que o Mercado está irreconhecível e irracional.

Segundo eles, nada na economia argentina apontaria para a crise, da mesma forma que nada na economia brasileira explicaria a desvalorização do Real. Por outro lado, o Mercado acusa a crise política e a falta de reformas por seu nervosismo, embora a Argentina tenha feito todas as reformas exigidas e o Brasil não tenha ficado muito atrás.

Qualquer denúncia de corrupção, qualquer cumprimento da lei magna, qualquer bate boca entre sobas do poder, qualquer ameaça de manifestação popular, fazem o Mercado ter chiliques. Da mesma forma que qualquer superávit primário de US$ 3,4 bilhões do governo brasileiro faz com que o Mercado entre em êxtase, mesmo que a dívida externa tenha crescido US$ 7 ou 8 bilhões.

O Mercado, como seus analistas e adoradores, entrou em parafuso, ficou biruta. É verdade que os presidentes do FMI e do Banco Mundial têm noção e disseram que essa nave chamada Mercado está desgovernada porque o capitalismo que o controla entrou em crise sistêmica. Eles parecem não ter idéia, porém, de que o piloto no comando endoidou e não quer aterrizar.

No caso brasileiro, o Mercado dominado pelas corporações capitalistas fez a destruição criativa. Cria alguns pólos de alta tecnologia (e baixíssimo emprego); destruiu grande parte das forças produtivas tradicionais, gerando um descomunal exército de reserva no entorno daqueles pólos; está desertificando o território; e tornou nosso país completamente dependente do sistema financeiro internacional e das tecnologias geradas fora.

Hoje o Brasil tem o desafio de gerar milhões de postos de trabalho, para eliminar o desemprego, a miséria e a violência. Para se desenvolver, tem que recuperar a soberania nacional, cortando os laços de dependência e inserção subordinada no Mercado mundial, e precisa transformar a atual democracia de encenação numa democracia participativa, em que as camadas populares tenham voz ativa para impor novos modelos de desenvolvimento, implantar uma nova ética social, coibir a corrupção e orientar o país no rumo de uma sociedade socialista, já que qualquer modelo capitalista sempre gerará as mesmas distorções com que o Brasil se defronta.

As eleições de 2002 serão uma nova oportunidade para mudar o país. No entanto, quanto mais essa possibilidade se tornar viável, mais desesperado e irracional o Mercado se tornará, podendo gerar uma crise antes. Então, até mesmo aproveitando o caso argentino, não custa que a esquerda se previna e prepare seu plano de emergência econômica e política. Supor que a receita que leva nosso país à crise deve ser a mesma que o tirará dela seria acreditar demais na capacidade do piloto doido e do Mercado biruta.

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