Até que enfim

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Até que enfim, n. 199, 18 jun. 2000.

 

 

É, até que enfim as lideranças sindicais se deram conta de que a redução da jornada de trabalho é um dos instrumentos fundamentais dos trabalhadores contra o desemprego. As mobilizações operárias nesse rumo já obrigaram FHC a reconhecer a reivindicação como útil e legitima a FIESP a recuar de seu intento de nem discutir o assunto.

FHC procura, ao mesmo tempo, recuperar a popularidade e eximir-se da responsabilidade pelo desemprego. Oculta o papel das políticas recessivas e privatizantes de seu governo no brutal corte de postos de trabalho na economia brasileira, jogando tudo sobre a reestruturação tecnológica e organizacional, destinada a elevar a produtividade do trabalho e a capacidade de competição das empresas no mercado.

Entretanto, se é verdade que tal reestruturação é responsável pelo aumento do desemprego estrutural, também é verdade que, desde o início de seu governo, FHC impôs ao Brasil uma política de baixo crescimento. Nossa economia perdeu a capacidade de absorver não só os trabalhadores excluídos pelas novas tecnologias, mas também a massa de um milhão e meio de pessoas que chega anualmente ao mercado de trabalho.

Essa situação tem sido agravada ainda pelas políticas relacionadas com as privatizações e a reforma agrária. Entre 1996 e 1999, os capitais estrangeiros investiram no Brasil quase 75 bilhões de dólares e o BNDES desembolsou mais de 52 bilhões de dólares, mas quase tudo foi direcionado não para a construção de novas indústrias ou novos serviços, mas para a aquisição, por corporações estrangeiras, de antigas empresas estatais e privadas, a serem modernizadas e terem empregos cortados. A reforma agrária fajuta de FHC, por seu turno, ao não impedir a crescente concentração fundiária, tem agravado o êxodo rural, transformando o problema do desemprego numa grave questão não apenas urbana, mas também rural.

Nossos sindicalistas parecem ter custado a perceber a cumplicidade perversa entre essas diversas políticas. Primeiro, muitos acreditaram que as multinacionais pagavam melhor e tinham mais capacidade de ampliar a produção e o emprego, apoiando a venda das estatais. Depois, esforçaram-se em vão para resolver separadamente os problemas, via câmaras setoriais, que só funcionaram enquanto foram úteis a alguns setores empresariais. Finalmente, jogaram-se de corpo e alma na requalificação profissional, como se a conquista de emprego dependesse unicamente disso.

Menos mal que redescobriram uma velha lição da história: os trabalhadores só conseguem manter altas taxas de emprego com luta constante pela redução das jornadas. Falta, agora, redescobrir que essas taxas dependem também de crescimento econômico, desconcentração da terra e de uma política clara de investimentos, que obrigue as empresas multinacionais e nacionais a construir plantas novas e gerar empregos. O resto é confete.

Você pode gostar...

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *