As tolas analogias históricas

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | As tolas analogias históricas, n. 407, 24 jul. 2004.

 

 

Afinal, para que serve a história? Para poder fazer analogias, mesmo tolas, e delas extrair algumas lições? Ou para chegar à conclusão de que tudo ruiu, sendo preciso começar tudo de novo, desde o começo, mesmo que não se saiba direito o que fazer?

Mesmo que seja uma opção tola, eu prefiro a primeira hipótese. A humanidade só chegou ao nível atual de sua existência porque, no processo de gerações sucessivas, as gerações anteriores transmitiram às novas sua produção material e intelectual, embora as novas gerações muitas vezes se recusassem a tomar consciência disso e, às vezes, quisessem reinventar o fogo e a roda ao enfrentar os problemas de sua própria geração. Derrotas e vitórias, por isso mesmo, tornaram-se fatos corriqueiros da história humana. E reconhecer uma e outra, isoladamente, jamais chegou a ser um problema de monta.

Em geral, o carro tem emperrado quando, numa batalha, alguns consideram que seu exército já foi derrotado e entram em debandada. Há muitos exemplos históricos, talvez tolos, mas graves, mostrando que a debandada foi baseada numa percepção errada e que ela é que levou à derrota. Como também há exemplos de que havia razão na debandada, embora esta tenha tornado a derrota ainda maior.

O carro também tem emperrado quando uma derrota demonstra ser, ao mesmo tempo, uma vitória. Ou a vitória, uma derrota. Ou, ainda, quando é preciso ir fundo na análise da derrota, ou da vitória (já que a vitória também produz muitos cacos), para determinar sua natureza e separar os cacos que se deve jogar fora, daqueles que se deve conservar e reconstituir. E, disso tudo, extrair o rumo futuro, para não cometer erros idênticos e não sofrer derrotas certeiras, ou vitórias enganosas. Fora isso, é fácil dizer que houve uma derrota ou uma vitória.

Tomemos os dilemas da atualidade brasileira. A esquerda brasileira já foi mesmo derrotada, após alcançar a maior vitória de toda a sua história? Suponhamos que isso seja verdade. Se é assim, basta reconhecer tal derrota e ficar choramingando? Ou será preciso demonstrar que o PT e o governo Lula transformaram-se na direita? Ou em traidores, como querem alguns? Será ou não necessário explicar em que posição se encontram o PSDB e o PFL, e por que a burguesia continua tentando se livrar de Lula e do PT?

Conforme as conclusões, como analisar o atual quadro social e político? Que estratégias e que táticas contrapor a tais dificuldades estruturais? Em outras palavras, apesar das tolas analogias históricas, devemos ficar em generalidades, do tipo fazer outra coisa, ou devemos demonstrar as certezas que temos?

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

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