As regras do jogo

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | As regras do jogo, n. 286, 09 mar. 2002.

 

 

Não deixa de ser fascinante como o poder de Estado põe e dispõe sobre as regras políticas, de acordo com seus interesses maiores. É evidente que a verticalização das coligações já era lei desde antes das eleições de 1998. Porém, se naquele momento o STE fosse provocado a pronunciar-se a respeito, é muito provável que a votação fosse completamente diferente da atual. O casuísmo, tanto em 1998, quanto agora, não se refere a nenhum plano maquiavélico, embora estes também existam. Refere-se à própria análise que os homens do cume do poder, seja no Executivo, Legislativo ou Judiciário, fazem do quadro político e de como respondem aos desafios que os constrangem a manter a ordem estabelecida.

A decisão do TSE para a aplicação da lei aconteceu num momento em que as forças dominantes no Executivo e no Legislativo se digladiavam para determinar qual delas deve manter a hegemonia no poder. O incrível é que não se trata de uma luta programática. PSDB, PFL, PMDB, PPB, PTB possuem o mesmo núcleo programático nos campos econômico, social, cultural e político. Todos eles estão dispostos a levar adiante o processo de privatização e alienação da economia brasileira. Todos sabem das conseqüências sociais desse processo e só divergem em torno da escala das políticas compensatórias que devem ser implementadas. Todos concordam que cultura é mercadoria e que deve prevalecer aquela que tenha mais força no mercado. E todos estão de acordo que a democracia é válida enquanto puderem manter o poder.

Apesar disso, a disputa entre eles e dentro de cada um torna-se a cada dia mais acirrada. A tal ponto que a governadora Roseana Sarney se sentiu diretamente atingida pela decisão do TSE, acusando o golpe como armação tucana. E que a ação da Polícia Federal, cumprindo uma ordem judicial, foi tomada como um ataque à liturgia de domínio da família Sarney sobre o Maranhão, levando o PFL a ameaçar seu desembarque do governo e produzindo uma crise de governabilidade. Assim, como diria o saudoso Barão de Itararé, há muito mais coisas do que aviões de carreira no céu programático das elites brasileiras. O aumento da participação das corporações multinacionais na economia do país reduziu a parcela de riqueza que cabia àquelas elites, transformando a luta de vida e morte pelo vil metal num espetáculo de disputa medieval em torno da honra e do poder.

É provável que os ministros do STE que votaram a favor da aplicação imediata da lei tenham querido forçar a união nacional e regional entre as forças que compunham a aliança que garantiu oito anos de governo a FHC. Esta seria a forma mais viável de promover a continuidade. Mesmo porque havia uma certa garantia de que a esquerda continuaria desunida, já que a coligação PPS-PDT, em torno de Ciro Gomes, dificilmente seria atingida com a obrigação de repetir-se em todos os estados. E Garotinho, com o esquema financeiro que o suporta, dificilmente concordaria em retirar sua candidatura para possibilitar a reaproximação entre o PSB e o PT.

No entanto, quando estão em jogo os interesses que norteiam com mais força as elites e seus partidos, é provável que o remédio tentado pela intelectualidade do TSE funcione ao contrário. É até provável que o governo FHC não rache formalmente ainda desta vez. Mas as fendas abertas já não podem ser soldadas e qualquer acordo será apenas para manter as aparências. Resta ver se a esquerda vai entender o que está se passando e se reciclar com vistas às novas condições que lhe são oferecidas.

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

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