As leis de ferro da política

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | As leis de ferro da política, n. 471, 22 out. 2005.

 

 

O direito de livre pensar é só pensar, como diria o Barão de Itararé. Da mesma forma que o “livre arbítrio” pode ser verdade, mas apenas parcialmente, para quem possui o poder, em suas diversas variantes. Na prática, se não temos poder, ou força social e política, a vida sempre dá um jeito de nos transformar em salame de algum sanduíche. Esse é o caso do PSOL e de todos os companheiros que não só abandonaram o PT, utilizando-se plenamente de seu direito democrático, mas também, e principalmente, passaram a tomar o PT como inimigo principal.

Se o PT e o governo Lula houvessem perdido sua base política, houvessem realizado uma ruptura objetiva e profunda com sua base social e, nesse processo, os que abandonaram o PT tivessem construído uma verdadeira alternativa política de massas, seria até possível, independentemente de concordarmos ou não com suas propostas políticas, que se transformassem numa opção diferente, seja ao petismo, seja à direita tucano-pefelista.

A questão é que o PT e o governo Lula não perderam sua base política, apesar dos problemas existentes, e de alguns confundirem maior força com maioria. Os descontentes, por seu turno, não construíram nada parecido. Entre outras coisas, porque não aceitam que, na política, uma das questões chaves consiste em dividir o adversário e atrair uma parte dele para o seu lado. Não possuem força social nem política, não possuem poder.

Numa situação dessas, podem até fazer os discursos revolucionários mais radicais. Porém, na hora da política concreta, o que assistimos é à senadora Heloisa Helena atacando a “canalha do Planalto” e votando junto com o PSDB e o PFL. Só a retórica diferencia o seu discurso dos de ACM, ACM Neto, Bornhausen, Artur Virgílio e outros próceres do tucanato e do pefelismo. Para todos eles, os inimigos a serem derrotados e derrubados são o governo Lula e o PT.

Isso nada tem a ver com o desejo sincero de construir uma alternativa “pela esquerda”. Pelo simples fato de que, na prática, valem as leis de ferro da política. Se um agrupamento não tem força suficiente, ele tende a ser atraído por um dos lados da contenda, quando a disputa política se aguça e polariza. Pode fazer isso esperneando, mantendo seu espírito crítico e seu ardor revolucionário. Mas se vê obrigado a alinhar-se com algum dos pólos, ou fica isolado. Na situação brasileira, por mais que o PT e o governo Lula possam ser criticados “pela esquerda”, eles são a esquerda quando se trata dos confrontos com o PSDB e o PFL. Perder de vista que estes são a direita é o mesmo que ignorar a política real.

Para escapar dessa malha da política concreta, o PSOL, e os demais companheiros radicalmente críticos das posições do PT e do governo Lula, teriam que tomar a direita como inimiga principal. O que os obrigaria a aliar-se ao PT, ou procurar outros caminhos para diferenciar-se da direita. Porém, se continuarem considerando o PT e o governo Lula os inimigos principais, infelizmente não terão outras opções. Continuarão andando de braços dados com o PSDB e o PFL e alimentando a direita, por mais que possam detestar fazer isso.

É direito deles? É. Mas também é nosso direito dizer-lhes que não estão retomando nenhum petismo puro (que nunca existiu), nem caminhando pela esquerda, mas pela direita. O que é uma pena.

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

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