As chances do PT

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | As chances do PT, n. 496, 22 abr. 2006.

 

 

No final de 2005, o PT era dado como cachorro morto. Talvez em poucos momentos da história brasileira se tenha assistido a uma tal barragem de artilharia pesada, dos meios de comunicação, dos partidos de direita e de centro, e também de setores da esquerda, para destruir um partido político. Ainda hoje, há os que consideram inevitável a decadência e o fim desse partido, cuja tendência geral seria reduzir-se a um agrupamento inexpressivo.

Apesar disso, o PT ainda aparece, nas pesquisas de opinião, como o partido de maior preferência eleitoral. Setores da esquerda procuram explicar essa persistência porque a mídia, a serviço da burguesia, faria crer que não existem outros partidos no Brasil, além do PSDB, PFL e PT. Ou seja, a mesma mídia que apunhala o PT seria a mídia que o afaga. Esse argumento pode ser sedutor, mas não resiste a uma análise. A não ser que se acredite que a maioria do povo brasileiro é constituída de gente estúpida, sem qualquer noção crítica.

Na verdade, embora haja um reconhecimento claro de que o PT cometeu erros graves como partido, e que altos dirigentes da sigla cometeram atos de corrupção, aquela preferência está alicerçada na suposição de que o PT é defensor do povo e do Brasil, continua combativo, tem uma militância aguerrida identificada com os pobres e com alto espírito crítico. Em outras palavras, embora o PT esteja manchado, uma parcela significativa dos trabalhadores e do povo brasileiro ainda o identifica por seus traços originários e acredita na sua capacidade de recuperação.

Assim, por um lado, o PT não foi liquidado, nem parece estar irremediavelmente decadente. Apresenta, ao contrário, chances de curar suas feridas e retomar sua trajetória ascendente. Mas essas chances, por outro lado, representam também o inverso, à medida que podem levar as lideranças e a militância petista a acreditarem que seus problemas estão sanados, sem necessidade de fazer um completo ajuste político de contas com os erros e delinqüências cometidos pela direção do chamado campo majoritário.

O PT ainda precisa demonstrar que não compactua com atos de corrupção cometidos por dirigentes, tenham eles o histórico que tiverem. Precisa comprovar que suas alianças são realizadas com a delimitação das diferenças. Precisa reiterar, teórica e praticamente, que a defesa dos trabalhadores, dos pobres, da justiça econômica e social e dos movimentos sociais é sua prioridade. E que, apesar dos descaminhos a que foi levado, está disposto a retomar sua característica de diferente dos demais. Pode ser um longo e difícil caminho. Mas, daí a achar que o PT já era, vai uma longa distância.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

 

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