As chances da esquerda

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | As chances da esquerda; 17 jun. 1998.

 

 

Há perplexidade: Lula e FHC empatados nas preferências do eleitorado. Mais: Lula vence em algumas projeções para o 2º turno. A direita se pergunta o que fez de errado. E a esquerda não parece saber o que aconteceu. Deste modo, se há pouco era quase um delírio sustentar que as eleições de 98 poderiam ser idênticas às de 89, agora é um exercício indispensável verificar se a esquerda tem chances.

Ela pode continuar errática. Ora afirmar que só dirá o que vai fazer no governo após vencer as eleições, ora falar que tornará nulas as privatizações, ora que somente tomará medidas após comprovar irregularidades. Ora reiterar seu apoio aos Sem-Terra, ora declarar que o governo Lula não apoiará as ocupações de terras porque fará a reforma agrária. Ora dizer que desvalorizará o câmbio, ora que não. Ora atacar como conservadora a política de estabilização inflacionária, ora negar o ataque.

Se continuar assim a esquerda pode vencer? Pode. Afinal, faz tempo que ela se pauta desta forma e, mesmo assim, FHC caiu e Lula subiu. Lula parece ter sido identificado, no imaginário popular, ao poste negação de FHC. Portanto, pode crescer mais se a rejeição ao presidente se aprofundar.

Mas, também pode perder o pé, se FHC adotar medidas que estanquem a rejeição. Neste caso, as chances da esquerda dependem de sua própria ação e não da iniciativa contraproducente do adversário. Terá, por exemplo, que continuar as denúncias e os ataques à política governamental, com provas concretas do que diz, de modo a consolidar aquela identificação com o poste. E terá, além disso, que dizer claramente o que vai fazer para liquidar o desemprego, resolver os problemas sociais, reerguer as empresas quebradas e retomar o crescimento econômico, de modo a conquistar a iniciativa do processo político e realizar uma ampla mobilização popular, no mínimo idêntica à de 89.

Assim, sem haver acreditado e se preparado para estes cenários, a esquerda tem chances, mais uma vez, de chegar ao governo central. Isto pode ocorrer independentemente dela. Seu problema, então, será descobrir, depois, o tamanho das expectativas do povo brasileiro, e atendê-las.  Isto também pode ocorrer com compromissos transparentes e mobilização popular, dependendo da estratégia da campanha. Isto não diminuirá as dificuldades da esquerda no governo, mas pelo menos pode garantir sua sintonia com as expectativas populares, algo essencial para enfrentar a frustração das elites, e sua ira.

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