Aprender com os vizinhos

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Aprender com os vizinhos, n. 293, 27 abr. 2002.

 

 

Ensina a história que aprender com os vizinhos, assim como cautela e caldo de galinha, não fazem mal a ninguém. Argentina, Venezuela e França, vizinhos próximos e distante, oferecem à esquerda brasileira alguns ensinamentos que talvez sejam úteis, ante os desafios que tem pela frente.

É evidente que o primeiro e mais evidente é que uma esquerda desunida, seja em sua base social, seja em sua representação política, sempre está fadada a levar a pior, apesar de exceções que confirmam a regra. Mas é preciso tomar cuidado com as análises que tendem a explicar tal desunião por algum mal inerente à própria esquerda. Esta, assim como o centro e a direita política, unem-se e desunem-se em função das circunstâncias sociais, culturais e políticas que enfrentam. Como expressão diferenciada de uma base social também diferenciada, a esquerda política une-se ou divide-se em função da situação real dessa mesma base.

Assim, é preciso procurar na situação da base social da esquerda sua própria capacidade para unir-se ou não. Em geral, quando algum setor da esquerda política consegue expressar adequadamente as insatisfações, demandas, anseios e expectativas da base social que teoricamente representa, essa base tende a manter-se unida e apoiar massivamente aquele setor da esquerda política que conquista a hegemonia e transformar-se em pólo de atração do restante da esquerda. Isso foi mais ou menos o que aconteceu em 1989, no Brasil, e, em 1999, na Venezuela.

Quando, ao contrário, o setor hegemônico da esquerda política não consegue expressar os descontentamentos e aspirações de sua própria base social, há um processo de fraturamento nessa base, que pressiona os demais setores da esquerda a expressar os descontentamentos e expectativas não assumidos pelo setor hegemônico. Nessas condições, há um esgarçamento na hegemonia da esquerda e, portanto, um processo de divisão que tende a ser mais evidente quanto mais acirrado é a disputa pela hegemonia na sociedade.

Isto parece ter sido verdadeiro no caso da Venezuela, em que o movimento bolivariano deixou de expressar as demandas e expectativas das classes médias e de setores do operariado e permitiu que ambos fossem hegemonizados pelas oligarquias de direita. Isso também parece patente no caso das eleições francesas, em que o partido socialista foi eliminado da possibilidade de ir para o segundo turno da disputa presidencial.

Na Argentina, uma base social fragmentada ainda não conseguiu criar uma esquerda política forte. E no Brasil, a esquerda política apresenta-se desunida, refletindo, de certo modo, que algo em sua base social está fragmentado. Resta saber se Lula e o PT, como no passado, terão capacidade de expressar as insatisfações, demandas, anseios e expectativas da base social constituída pelos trabalhadores, excluídos/marginalizados, camponeses, agricultores familiares e médios e classes médias urbanas, mais de 90% da população brasileira. E, com isso, reconstruir as condições para a reunificação da esquerda e reconquistar a hegemonia.

Mesmo porque, tão paradoxo quanto votar na direita para derrotar a extrema direita, é dizer que esta não tem direito de vencer, mesmo havendo vencido dentro das regras democráticas. É preferível evitar as políticas erradas da esquerda em relação a sua base social e impedir, na disputa política, que a direita cresça sobre os erros e desvios da própria esquerda.

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

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