Aprendendo com a desgraça

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Aprendendo com a desgraça, n. 279, 19 jan. 2002.

 

 

Entre as coisas que deveríamos aprender com a tragédia argentina está a atitude que os Estados Unidos, o FMI e outros organismos internacionais sob comando norte-americano adotam diante das tentativas de nosso vizinho em escapar do abismo em que foi metido.

O Império do norte e suas instituições financeiras fingem ignorar que foram justamente os “planos econômicos consistentes” e o “rigor fiscal” patrocinados por eles que destruíram a vida econômica da Argentina, arrancaram de seu povo o suor e o sangue para manter em dia o pagamento das dívidas internacionais e jogaram aquele país à beira de um abismo sem fundo.

Agora, em vez de estender a mão à Argentina e evitar que desabe no precipício, o presidente Bush exige do governo daquele país um “plano econômico consistente” e “rigor fiscal”, a mesma ladainha com que a vice-diretora gerente do FMI respondeu às solicitações argentinas para liberar um empréstimo de emergência.

Para completar o quadro de pressões, funcionários de segundo escalão do Departamento de Estado dos EUA chamaram um representante da embaixada argentina para prestar esclarecimentos sobre o controle de preços, o apoio da Argentina ao Mercosul, a disposição do governo Duhalde em manter o “rigor fiscal” e a “consistência econômica” e a verdade sobre a ajuda brasileira à Argentina.

Os funcionários americanos parecem enxergar mais longe do que os próprios argentinos e seus vizinhos brasileiros. Para eles, não está em perigo apenas o arcabouço econômico neoliberal montado na Argentina. Estão em perigo o tipo de “rigor fiscal” e o tipo de “plano econômico consistente” que permitiam às corporações multinacionais norte-americanas e outras dilapidar sem peias os países da América Latina.

Mas, além disso, os Estados Unidos estão seriamente preocupados com as relações da Argentina com o Mercosul e com o Brasil. Depois de anos e anos tendo no governo argentino aliados fiéis e servis, que preferiam a Alca e faziam tudo para desagregar o Mercosul, os Estados Unidos estão preocupados em perder esse apoio automático e fazem jogo bruto para impedir que a Argentina se levante novamente. Se esta não quer apoiá-los, então que não tenha condições de apoiar mais ninguém.

A esquerda brasileira, que corre o risco de vencer as eleições, agravando pois a situação dos Estados Unidos na América Latina, talvez devesse levar mais em conta esses acontecimentos e preparar-se melhor para o caso de ter que enfrentar uma situação idêntica à da Argentina. Afinal, aqui como lá, desde o início dos anos 90 não se fez outra coisa que aplicar os “planos econômicos consistentes” e o “rigor fiscal” exigidos pelos EUA, via FMI.

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

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