Apagão político

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WPO | ART | CON | Apagão político; jun. 2001.

 

 

A renúncia de ACM, em seguida à do senador Arruda, aparentemente aliviou o ambiente político, dando chance a FHC de tentar rearticular a aliança que o sustenta desde 1994. Esta empreitada, porém, talvez se apresente mais difícil do que o desejo da nova cúpula do PSDB. Se a saída de ACM encerrou uma crise instalada tanto Congresso quanto no centro do poder, ela também descerrou a cortina da desagregação daquela aliança e deixou o presidente sozinho no palco. Ele não terá mais a sombra do oligarca baiano, que disputava com ele os louros das vitórias, mas também dividia o onus dos problemas e das críticas. Agora não há mais dúvidas. FHC é o presidente único, para o bem e para o mal.

E o problema do presidente é que as variáveis que geravam incertezas, intranqüilidade e instabilidade políticas não parecem dispostas a refluir. A crise energética é uma ilhota, à flor d’água, produzida pelo cume de uma montanha de crises ainda submersas. A estiagem generalizada, não só de chuvas, mas também de capitais, saldos comerciais, produção, empregos, juros baixos e outros fatores econômicos e sociais, tenderá a descobrir outras crises, cuja perspectiva leva as forças políticas a acelerar suas atividades com vistas às eleições de 2002 e, até mesmo, a uma crise institucional antes disso.

A presente conjuntura parece ser uma transição dos cenários em que o Planalto era um administrador de relativo sucesso das crises de sua própria base política para os cenários em que não terá mais condições de controlar, nem com distribuição de cargos e benesses, nem com ações fisiológicas de outros tipos, o processo de desagregação dessa base ou a tendência de seus membros procurarem salva vidas seguros para o teste eleitoral de 2002. A disputa pelo bolo reduzido da riqueza nacional tornou-se ainda mais selvagem e a queda dos senadores ACM e Arruda apontou para a presença crescente de um ator que até então era desconsiderado nos planos do governo e da maior parte das forças políticas: as manifestações populares.

O rumor surdo das ruas está se transformando num rumor estridente e aberto, tornando mais difícil a costumeira conciliação por cima, como ocorreu no caso do painel eletrônico do Senado. É também esse rumor popular que está levando alguns instrumentos da mídia a reciclar-se, de sua trajetória de porta-vozes não oficiais de tudo o que o governo dizia ou pretendia, em ecos, mesmo abafados, do descontentamento e da indignação da população.

Assim, FHC teve alguma razão, em seu desabafo, quando reclamou da imprensa dar guarida às denúncias de corrupção e às más notícias. Afinal, a mídia sempre foi sua aliada ativa em desqualificar as denúncias e transformar más notícias reais em boas notícias virtuais. Mas, para não ser pego de surpresa também neste assunto, o presidente deveria encarar com mais realismo o que está acontecendo à sua volta e no país. O perigo de apagão não se restringe à crise de energia e a imprensa, como muitos políticos de sua base de sustentação, pretende sobreviver após o final legal de seu governo. Deram-se conta de que a capacidade deste, em manter a iniciativa política e solucionar os problemas existentes, parece ter findado há algum tempo.

Num contexto como esse, a busca de alternativas ao governo e a suas políticas deve crescer, tanto na oposição, quanto no bloco de forças no poder. A candidatura Itamar torna-se um pólo de atração cada vez mais irresistível dentro do PMDB, ocupando o espaço do centro e da centro-esquerda, à medida que se apresenta como um oponente sem concessões a FHC. Nessas condições, a provável candidatura Lula, pela esquerda, terá que se firmar como pólo de atração dos trabalhadores e excluídos, se quiser manter seu nível de preferências, disputar a classificação no primeiro turno e, no segundo, reunir todas as forças oposicionistas contra o candidato continuista.

O bloco no poder parece ter poucas opções. Trabalha para lançar uma candidatura do PSDB que mantenha a aliança conservadora com o PFL, apesar de ACM. Seu problema consiste em que, não podendo descartar o apoio de FHC, quem quer que seja seu candidato, Serra, Tasso ou outro, correrá um risco incalculável. Dificilmente FHC conseguirá livrar-se do símbolo de haver trazido para o país a crise de energia e ter impedido o esclarecimento das denúncias que pesam sobre personagens chaves de seu governo e sobre ele próprio. Nessa condição, funcionará como um apagão político para quem apoiar.

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