Angústias eleitorais (4)

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Angústias eleitorais (4), n. 308, 10 ago. 2002.

 

 

O que verdadeiramente está em causa para as forças populares na atual disputa eleitoral? A disposição de mudança do povão, mesmo que isso represente uma “ilusão que as massas depositam no candidato” petista, como supõe um leitor? Ou, a necessidade de alguns grupos políticos “dizerem a verdade ao povo”? E, neste segundo caso, que “verdade” seria essa? A do mesmo leitor, segundo o qual, “uma vez eleito Lula continuará aplicando a mesmíssima política do atual governo FHC”?

Se Lênin houvesse seguido a orientação desse leitor em 1917, ele jamais teria apelado a “todo o poder aos soviets”. Os soviets estavam dominados pelos mencheviques, cujo programa era “totalmente submisso ao ditame” liberal da época. Sua direção tinha a “postura social-democrata de colaboração com a burguesia”. Então, fazer tal apelo serviria “apenas para enganar e confundir ainda mais os trabalhadores” com “frágeis” argumentos a respeito da “percepção popular”, como foram os de Lênin na ocasião. E, lembremos, não estava em jogo uma questão eleitoral, mas uma revolução em curso. A história mostrou que errados estavam os que pensavam como o leitor.

Com muito mais razão, nas condições eleitorais brasileiras de hoje, o que está verdadeiramente em causa é a disposição de mudança do povão, a “percepção popular” de que é preciso mudar. Somente tendo em conta tal percepção pode-se ter a dimensão do que representa a candidatura Lula na simbologia popular. E, em conseqüência, trabalhar no sentido de transformar essa candidatura num poderoso movimento social e político, que encha ruas e praças e se torne avassalador. Desde o final dos anos 80 não apareciam condições tão favoráveis para isso.

O resto é detalhe, que pode levar a erros crassos, como fazem o PSTU e o PCO. Com todo o respeito que eles mereçam, suas candidaturas presidenciais apenas vão para as ruas com alguma “dignidade”. São incapazes de mobilizar grandes massas, de transformar o desejo de mudança dessas massas numa força social e política verdadeira.

Pior, ao não compreenderem a realidade da percepção popular e se deixarem envolver por suas discordâncias com as táticas atuais do PT, acabam tomando Lula como inimigo principal e dirigindo a ele os mesmos ataques que lhe dirige a “politicalha burguesa”. Sequer levam em conta que, mesmo se tivessem razão, a presença de um movimento social e político avassalador seria o único remédio capaz de corrigir tais táticas e diferenciar a mentira da verdade. Desse modo, sua “dignidade” será estéril para o campo popular, mas muito útil para os candidatos do capital.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político

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