Angústias eleitorais (3)

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Angústias eleitorais (3), n. 307, 03 ago. 2002.

 

 

O mundo e o Brasil parecem estar ruindo, mas isso não invalida a necessidade de continuar tratando das angústias eleitorais. Afinal, do resultado dessas eleições vai depender, em grande parte, o posicionamento futuro do Brasil diante dos perigos que o rondam.

Portanto, continuemos, admitindo o fato incontestável de que o PT e Lula fizeram aliança com um setor da burguesia. O senador José de Alencar é um representante da burguesia e não há como negá-lo. No entanto, ataques a uma aliança com os “bons patrões” e a uma acomodação na “vala comum da politicalha burguesa” servem apenas para extravasar angústias, nada mais.

Em primeiro lugar, não existem bons e maus patrões. Todos eles acumulam capital extraindo mais-valia da força de trabalho assalariada. Depois, aquela afirmação esconde um fato histórico a ser melhor considerado. É a primeira vez em toda a história da esquerda brasileira que um partido de trabalhadores se alia a partidos ou personalidades burguesas estando na cabeça da chapa. Ou seja, é a primeira vez na história brasileira que um setor da burguesia curva-se à hegemonia de um partido de trabalhadores numa disputa política. Quem despreza esse fato não leva na devida conta o que isso significa histórica e politicamente.

Por outro lado, nem as revoluções operárias mais radicais desprezaram a tática de dividir a burguesia. As que tiveram sucesso operaram no sentido de isolar e atacar os inimigos principais, neutralizar os setores intermediários ou vacilantes, e atrair os setores que mantinham alguma contradição com os inimigos principais. Todas elas realizaram algum tipo de aliança com setores burgueses. Então, por que o PT, numa disputa eleitoral, teria que desprezar uma aliança com setores da burguesia? Pode-se até alegar que, no caso do PL, não foi o melhor tipo de aliança que se poderia fazer. No entanto, pelos argumentos que têm sido apresentados, qualquer tipo de aliança com setores burgueses sofreria os mesmos ataques.

Para derrotar as forças conservadoras nacionais e internacionais que controlam o poder no Brasil, é indispensável unificar não só as grandes camadas populares, mas também ganhar as camadas intermediárias (classes médias) e fazer esforços para dividir a burguesia, atraindo uma parte dela, neutralizando outra e direcionando o ataque contra os setores realmente dominantes (grande burguesia corporativa nacional e internacional).

E, se a burguesia já está naturalmente dividida, como aconteceu em 1989 e acontece agora, pela disputa em torno de interesses contrariados, ignorar essa realidade seria o mesmo que querer vegetar na constante derrota. Nossos angustiados também deveriam refletir mais friamente sobre isso.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político

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